Netflix revisita Massacre da Candelária sob ponto de vista das vítimas
Os Quatro da Candelária chega ao catálogo da Netflix nesta quarta-feira (30/10), com a história de quatro jovens no centro do Rio de Janeiro
A jornalista Daniela Arbex disse, quando escreveu um livro sobre a tragédia do Ninho do Urubu, que “uma história não contada é como se nunca tivesse existido”. É com um pensamento semelhante que os diretores Luis Lomenha e Marcia Faria trazem à tona, por meio de narrativas ficcionais, a brutalidade do massacre da Candelária, que marcou o país em 23 de julho de 1993, quando jovens, com idades entre 11 e 19 anos, foram friamente assassinados pela polícia diante da igreja, no centro da cidade do Rio de Janeiro.
Os diretores lançam na Netflix, nesta quarta-feira (30/10), a minissérie Os Quatro da Candelária. Dividida em quatro episódios, a produção é protagonizada por Patrick Congo (Sete), Wendy Queiroz (Pipoca), Andrei Marques (Jesus) e Samuel Silva (Douglas) e mostra a morte de sonhos e ambições das vítimas.
“Essa é uma série sobre infância e sobre crianças no centro do Rio de Janeiro. Uma série sobre sonho, sobre família, sobre amor, sobre a amizade. O objetivo dessa série foi devolver a humanidade e infantilizar essas crianças que foram ‘desinfantilizadas’, desumanizadas nesse trágico 23 de julho de 1993”, opina Luis Lomenha em conversa com o Metrópoles.
Uma das coisas mais bonitas que a série consegue é abordar o ponto de vista das crianças. A gente não está no ponto de vista dos algozes, não está no ponto de vista das instituições. O que essas crianças estão sentindo? O que elas estavam pensando? O que elas estão sonhando?
Marcia Faria
Representação da realidade
Lomenha ainda ponderou que a história da Candelária e, consequentemente, dos quatro personagens, se alinham em um contexto de racismo e preconceito.
“A Candelária foi erguida no século 17, com o sangue dos meus antepassados e dos antepassados dessas crianças. Essas pessoas saíam da alfândega, que fica a menos de 100 metros da Candelária, sofriam todo tipo de violência em frente à alfândega, onde vinham como material, como produto de estupro. E depois elas ganhavam alma em frente à igreja. Depois iam pro mercado para serem vendidas, muitas delas em condições muito vulneráveis ou de saúde. Mesmo no século 17, 18, elas perambulavam em frente a essa igreja”, ponderou.
“Essas crianças foram muito mais corajosas do que muitos adultos em romper com estruturas violentas e buscar a liberdade de alguma forma, construir uma nova família sobre uma ótica completamente diferente da convencional. Mas a vida forçou elas a estar nesse lugar”, completa.
É uma estrutura muito maior, uma estrutura em que a gente é massacrado diariamente por ela.
Tema atual
Os diretores lembram que, apesar de ter se passado 30 anos do massacre da Candelária, a série é atual quando traz a crueldade da vida dos quatro meninos para um contexto do século 21.
“A gente filma a série em primeiro plano. A gente tem os anos 90 com música, com roupa, com carro, com figurino. Quando a gente olha para o segundo, terceiro plano, a gente vê que é o século 21. E aí essa ideia de fazer uma coisa que atravesse isso, que não esteja datada e que foi muito intencional, que a gente percebe que isso continua ainda muito pior do que era antes”, pondera Lomenha.
Marcia ainda revela que, para compor as cenas, eles homenageiam dois filmes icônicos: Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980), e Cidade de Deus (2002). “A gente tem um passado e um presente e, infelizmente, talvez um futuro de repetidas chacinas, repetidos assassinatos. Não é uma coisa que terminou, que ficou para trás. É uma coisa que ainda existe”, finaliza.
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