Para representante do Movimento Negro- AL, o combate ao racismo deve começar na infância
Em cada oportunidade de enfrentar a escola, as passarelas, os espaços públicos e o mundo em geral, um método simples, mas que parece eficaz como parte do desenvolvimento de uma cultura de autoafirmação e valorização do próprio corpo e das próprias características étnicas: o olhar-se no espelho. Assim inicia a preparação quase que diária da menina Stephany Mayara Silva Santos, 9 anos, modelo desde os quatro. A beleza refletida nas madeixas encaracoladas e o talento para o palco e as fotografias não impedem que Stephany sofra o racismo por ser negra.
A ativista e coordenadora do Instituto Raízes de Áfricas, uma das representações do Movimento Negro em Alagoas, e que acompanha Stephany há três meses, Arisia Barros, defende que o combate ao racismo deve ser iniciado desde a primeira infância, fase em que a criança começa a entrar em contato com os primeiros sinais do racismo, que surgem revestidos nas mais variadas facetas.
“Em nosso contexto brasileiro, os pais têm que educar seus filhos também para combater o racismo. Isso é cruel, porque tem que dizer a uma criança negra que ela tem que se superar, tem que ser a melhor e que a sociedade vai exigir muito, porque para alcançar um posto de trabalho relevante e ganhar bem, o negro tem que ser o melhor. Isso é mais um componente dentro da educação de negros e negras. É uma educação mais realista para dar a eles”, explica Barros. 
O olhar-se no espelho, segundo a Arisia, é uma dentre as alternativas encontradas para reforçar, de maneira lúdica e em linguagem infantil, a aceitação de que, o cabelo crespo e a cor negra fazem parte de “uma beleza que o mundo não aceita porque não está na beleza padrão, mas que através do espelho, ela possa se vê e se achar bonita”, explica Barros.
Nas passarelas, a mãe de Stephany, Maria Alcina, conta que apesar de a filha ter tido o primeiro contato com a moda aos quatro anos e já ter alguns títulos de concursos e trabalhos realizados, nenhum deles foi remunerado até o momento.
A modelo possui em sua ‘bagagem profissional’, desde o concurso Star Hits 2015 até a segunda colocação no concurso Belíssima Alagoas 2015. Agora ela é candidata ao Minimiss Alagoas 2016 e vai participar do Projeto Passarela 2016 que acontece em São Paulo.
Dentro deste universo e também na escola, a mãe afirma que a filha tem sofrido ataques racistas, questionamentos quanto aos títulos conquistados por ela, exclusão de grupos de amigos, chacotas, e até foi satirizada em uma página no facebook criada por anônimos com montagens e charges.
“Quando tomamos conhecimento que na escola nossa filha era motivo de chacota entre os coleguinhas, por causa do cabelo dela que incomodava os “padrões” da escola, começamos a conversar com nossa filha e mostrar como deveria agir nesses momentos, pois não seria nem o primeiro, nem o último, então ela teria que ser preparada para não sofrer tanto”, afirma a mãe.
Uma das primeiras pessoas a perceber o preconceito dirigido a Stephany, foi o seu orientador de moda, Miguel Conceição, que também é modelo e ativista do movimento negro em Alagoas. Ele conta que a modelo já foi alvo de memes na internet e que já foi ignorada por grupos de meninas que entrosavam entre si, excluindo-a de qualquer possibilidade de cumprimentos e conversa.
“A beleza negra é sempre associada a pobreza e não ao glamour da moda. Portanto, é muito mais difícil para a criança negra ser inserida num mundo que sempre é aludido à riqueza. Mas estamos na luta para tentar, ao menos, minimizar os efeitos do racismo fortalecendo o povo negro e conscientizando a sociedade”, afirma Miguel.
“A Stephany é uma menina belíssima, arrasa no mundo da moda e isso causa uma inquietação, ela é perseguida porque não aceitam que uma criança negra ocupe esse espaço”, complementa Arísia.
Processo de consciência
O processo de consciência negra começaria quando criança, para treiná-la a criar mecanismos de defesas que visam desconstruir o preconceito por meio de argumentos. Arísia explica que este processo deve ser lento e gradual, para não expor à criança num mundo de ativismo sem que ela esteja preparada para enfrentar os percalços que por ventura venham a ocorrer.
“Ela quer ser modelo, mas ao mesmo tempo ela não entende o que é essa confusão. Na cabeça dela é uma confusão. Não existe espaço para todos. O nosso espaço é espaço arrancado. No Brasil, tem que ter ousadia, coragem e inteligência para vencer a barra”, acrescenta Arísia.
Para isso, Stephany, acompanhada de Arísia, participa de rodas de conversa, encontros relacionados ao movimento negro, e de audiências públicas. No último dia 04, ela participou de uma audiência na Assembleia Legislativa, “Eku abo – Tempos de Áfricas – sobre lutas, ativismo e resiliência do povo preto”, em que falou sobre como é ser criança e sofrer de racismo, pedindo a deputada, Jó Pereira, investimentos na luta a favor do combate ao racismo na infância. 
Agora, ela é convidada por Arísia a participar de um programa que será veiculado uma vez por semana na TV e na rádio baseado em depoimentos com foco nos problemas sociais causados pelo racismo. Stephany vai abrir o programa para falar sobre o racismo na infância. O projeto é idealizado pela própria Arísia Barros e tem parceria com o Instituto Zumbi dos Palmares e o Instituto Raiz da África.
“O objetivo é despertar essas problemáticas e estabelecer caminhos de mudança. Cabe ao estado brasileiro, criar possibilidades para que a sociedade reconheça o racismo como uma forma perversa de exclusão. Stephany entra como aprendiz nesse processo”, finaliza.
Últimas notícias
Deputada Gabi Gonçalves realiza edição especial do Gabi Para Baixinhos no Vila Trampolim
Polícia Civil cumpre mandado de prisão por estupro e lesão corporal em Barra de Santo Antônio
Sine Jaraguá vai suspender atendimento ao público para mudança de prédio
PMAL e órgãos ambientais deflagram ações integradas para proteção do meio ambiente
Motorista de ônibus que saiu de Arapiraca foge após acidente com mortos em MG
Polícia apreende arma de fogo em Messias e recupera veículos roubados
Vídeos e noticias mais lidas
Cobranças abusivas de ambulantes em praias de AL geram denúncias e revolta da população
Corpo encontrado no Bosque das Arapiracas apresentava sinais de violência
Após bebedeira, dois homens se desentendem e trocam tiros em Traipu
Luciano Barbosa irá assinar ordem de serviço para o início das obras na Avenida Pio XII
