Busca de brasileiros por imigração aos EUA cresce às vésperas de Trump
Nos dois últimos meses, 940 brasileiros foram pegos após atravessar ilegalmente a fronteira americana
Logo após Donald Trump vencer a eleição prometendo endurecer a vigilância na fronteira, o rondoniense João (nome fictício) concluiu que deveria acelerar os planos de emigrar aos EUA e atravessar clandestinamente antes da posse presidencial, em 20 de janeiro.
"Toda vez que entra um republicano, a América dá uma retraída", disse João à Folha na semana passada, no voo de volta ao Brasil após ter sido deportado das Bahamas por tentar cruzar ilegalmente do país caribenho aos EUA.
Ao que tudo indica, João não está sozinho no raciocínio: o número de brasileiros presos nas fronteiras americanas e deportados das Bahamas deu um salto desde novembro, mês em que Trump foi eleito.
Nos dois últimos meses do ano passado, 940 brasileiros foram pegos após atravessar ilegalmente a fronteira americana, um média de 15,4 detenções por dia.
Trata-se de um crescimento de 73% em relação à média diária do ano fiscal de 2016 americano (1° de outubro de 2015 a 30 de setembro de 2016), quando 3.252 brasileiros foram presos (8,9 casos/dia). Os números são da Patrulha da Fronteira dos EUA.
O ano fiscal de 2016 já havia registrado um aumento de 142% em relação a 2015, quando foram detidos 1.344 brasileiros –média de 3,6 ocorrências por dia.
A prolongada crise econômica é apontada como o principal motivo para deixar o Brasil, segundo imigrantes ouvidos pela reportagem.
Nas Bahamas, rota usada por uma pequena fração dos imigrantes brasileiros (a maioria atravessa via México), dados preliminares mostram que 26 foram deportados do país apenas entre novembro e dezembro, contra 30 casos registrados nos dez meses anteriores.
Além de brasileiros, os centro-americanos também têm se apressado a cruzar a fronteira antes do governo Trump, segundo reportagens da imprensa americana.
"Ao vencer a eleição, Trump pode inadvertidamente ter deixado o seu trabalho mais difícil. Seus planos se tornaram argumento de atravessadores para convencer as pessoas a cruzar a fronteira antes do muro", diz reportagem do jornal "Washington Post" publicada em 18 de novembro.
Na sexta-feira (6), o republicano voltou a prometer a construção do muro com o México, cujas obras teriam início em abril. Analistas, no entanto, acham impraticável construir a barreira ao longo de cerca de 3.000 km de fronteira devido ao alto custo.
O presidente eleito tampouco promete vida fácil àqueles que estão irregularmente no país, afirmando que promoverá deportações em massa. O endurecimento contra os imigrantes foi uma de suas principais promessas de campanha.
SEGUNDA VEZ
O plano de João era voltar a morar perto de Nova York, onde já trabalhou como carpinteiro no início dos anos 2000. Caso tivesse atravessado, a mulher e a filha adolescente teriam viajado em seguida, de avião, com um visto de turista.
No grupo de cinco brasileiros com quem João tentou a travessia, outro também disse que a eleição de Trump pesou na hora de escolher a data da viagem.
Cada um pagaria US$ 20 mil caso chegassem aos EUA. Com o fracasso, os prejuízos foram a passagem entre o Brasil e as Bahamas e os gastos de viagem.
A desventura durou duas semanas, entre a espera para atravessar na ilhota Bimini —de onde avistavam as luzes de Miami durante a noite— e os cinco dias presos no superlotado centro de detenção para imigrantes, em Nassau, capital das Bahamas.
Com a rota pelas Bahamas inacessível, João, casado com uma funcionária pública e dono de duas carretas de frete no Brasil, planeja conversar com a mulher para refazer os planos, mas diz que não vai desistir.
"Penso em dar o melhor para a minha filha em educação, segurança", explicou. "A intenção é morar lá para sempre."
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