MP-SP pede para MPF apurar tráfico de bebês relacionado a João de Deus
Ao UOL, a defesa do médium disse que as acusações não têm provas e desmerecem "maior consideração"
O Ministério Público em São Paulo encaminhou nesta segunda-feira (7) informações ao MPF (Ministério Público Federal) sobre o suposto envolvimento do médium João Teixeira de Faria, 76, o João de Deus, em um esquema de tráfico internacional de bebês e de escravização de mulheres, com um pedido formal para que elas sejam investigadas.
O caso foi apresentado ao MP paulista pela ativista Sabrina Bittencourt, da força-tarefa "Somos Muitas", grupo que deu publicidade, mês passado, a uma série de casos de abuso sexual que teriam sido praticados pelo médium contra mulheres que buscavam atendimento espiritual em um centro de oração em Abadiânia, no interior de Goiás. Com as informações, o MP goiano instaurou sua própria força-tarefa, denunciou João de Deus e conseguiu que a Justiça decretasse, há menos de um mês, a prisão dele.
Sabrina divulgou um vídeo nas redes sociais no qual afirma que o médium integraria uma quadrilha de tráfico de bebês e também de escravização sexual de mulheres há pelo menos 20 anos. Funcionários dele atuariam em conjunto nos crimes relatados.
"Em geral, [eram] mulheres negras de baixa renda, tanto em Abadiânia quanto em Anápolis e no norte de Minas, que viviam próximas dos garimpos ilegais de João de Deus", diz Sabrina no vídeo, sobre as supostas escravas sexuais.
Segundo ela, que afirma ter coletado relatos de mães adotivas de países como Estados Unidos e Austrália, além de provas não especificadas no vídeo, as mulheres eram forçadas a engravidar em troca de comida para seus filhos.
Os bebês, ainda segundo Sabrina, seriam comercializados com famílias estrangeiras a valores entre US$ 20 mil e US$ 50 mil. A venda, ela diz, era "intermediada por guias turísticas espirituais, ex-funcionárias e cidadãos de Abadiânia que já estão fartos de serem coniventes, de forma coagida, com a quadrilha de João de Deus".
"Riqueza de detalhes" e provas
A coordenadora do Núcleo de Gênero do MP-SP, promotora Valéria Scarance, afirmou que o relato de Sabrina foi feito por videoconferência, já que a ativista, por questões de segurança, está em local incerto.
"Ela entrou em contato com o MP e nos passou todos os detalhes e os nomes das pessoas envolvidas nesse caso de venda e tráfico de crianças. Também nos forneceu provas. Todo esse material foi formalmente encaminhado ao MPF e também ao MP de Goiás", afirmou.
De acordo com a promotora, a suposta venda de bebês relatada pela ativista abrangeria cinco países.
"São relatos com uma riqueza de detalhes e algumas provas cuja análise competirá ao MPF. Os nomes de alguns funcionários e outras pessoas que estariam envolvidas, em regra, se repetem com muita frequência", disse a promotora, em menção à investigação sobre abusos sexuais. "É um fato que precisa ser apurado."
A promotora afirmou que o MP paulista tomará durante todo o mês de janeiro, às terças e quintas, depoimentos de mulheres que afirmam ser vítimas de abuso praticado pelo médium. Sobre as novas informações trazidas pelo "Somos muitas", ela afirmou: "Se as pessoas tiverem conhecimento sobre algo, podem procurar o MP para noticiar e colaborar, de forma absolutamente sigilosa", destacou.
Ao UOL, o MPF informou não ser possível confirmar o teor das informações apresentadas contra João de Deus. Segundo a Procuradoria, também não é possível informar quais medidas serão tomadas, já que as denúncias ainda devem ser distribuídas a um procurador em primeira instância, que então analisará os dados.
Outro lado
Procurado pela reportagem, o advogado Alberto Toron, defensor de João de Deus, afirmou que irá aguardar a investigação. Ele disse que, sem a apresentação de provas, as acusações apresentadas por Sabrina Bittencourt não merecem consideração.
"Sobre a autodenominada ativista, conheço apenas as gravíssimas acusações, mas são afirmações, múltiplas e variadas, que vão do tráfico de bebês à escravidão, porém sem a apresentação de quaisquer provas. Sem estas, a fala dela desmerece maior consideração. Aguardemos, pois, a investigação", afirmou o advogado.
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