Lacrou! Saiba o que expressões LGBTQ+ tem a ver com política
"Bater cabelo", "fazer a louca" e "fada sensata" são alguns termos do Pajubá, símbolo de resistência histórica que vai além da "cultura pop"
“Ques bixistranha, ensandecida/ Arrombada, pervertida/ Elas tomba, fecha, causa/ Elas é muita lacração...”, diz Linn da Quebrada em “Bixa Preta”. Os termos que saem da boca da artista, que se autodefine na música como “bicha loka, preta, favelada”, podem ser interpretados como simples gírias do vocabulário LGBTQ+. Mas as expressões usadas não são meras referências da "cultura pop”.
Resultado da união do português informal e falas usadas nas línguas africanas, mais especificamente dos grupos étnico-linguísticos nagô e iorubá, o Pajubá passou a ser reproduzido inicialmente em meios onde práticas religiosas afro-brasileiras eram aceitas, como os terreiros do candomblé e da umbanda.
Por serem espaços já vistos com preconceito e intolerância, o acolhimento de pessoas não heterossexuais foi se naturalizando por lá e as pessoas acabaram adaptando a linguagem africana às vivências LGBTQ+.
“Funcionava como uma estratégia de sobrevivência das pessoas sexo-gênero dissidentes”, explica Carlos Henrique de Lucas, professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia e autor do livro Linguagens Pajubeyras: Re(ex)sistência cultural e subversão da heteronormatividade.
Da resistência política ao entretenimento
Como uma forma de subversão ao sistema que violava os direitos humanos, a linguagem verbal e corporal pajubeyra foi muito usada durante o período da ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985. Nessa época, foi comprovado pela Comissão Nacional da Verdade que havia perseguição e abusos cometidos contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, alvos de excessos cometidos em práticas de tortura, espancamento e extorsão nos anos de chumbo.
“Penso as linguagens pajubeyras como verdadeiras máquinas de guerras, entendendo-as como estratégias políticas e culturais de superação de uma realidade que se mostrou tenebrosa para as travestis e as beeshas afeminadas”, relata o professor.
O dialeto, então, era utilizado para que essas pessoas se comunicassem com segurança durante a repressão. Segundo ele, a situação era ainda mais delicada para as travestis em um primeiro momento. “Uma vez que, como argumento no livro, foram elas a sofrerem o terror de Estado dirigido ao gênero dissidente e àquelas práticas sexuais que escapavam às normalidades heterossexuais”.
Desde então, cada vez mais o Pajubá vem se destacando não apenas na arte, refletindo a resistência cultural, como também conquistando espaço no âmbito acadêmico. Um exemplo disso foi quando chegou a ser tema da prova do Enem, em 2018, exaltando sua importância histórico, social e política.
O nome da linguagem passou a ser conhecido nos últimos anos e ganhou força quando artistas decidiram falar sobre o assunto. “O trabalho de artistas como Linn da Quebrada é extremamente potente no enfrentamento da violência centrada na sexualidade e no gênero. É um poderoso trabalho que aposta na inauguração de vidas possíveis, na criação de mundos em que os corpos de pessoas sexo-gênero dissidentes possam se mover livremente no interior de uma democracia. É preciso que entendamos o papel da cultura e da arte no enfrentamento da violência contra as pessoas LGBTQI+. E as linguagens pajubeyras operam exatamente aí”, destaca de Lucas.
Ainda assim, mesmo com um maior consumo da arte drag e visibilidade nos meios de comunicação pelo público heterossexual, artistas do meio retratam o preconceito. Para a cantora Kika Boom, é no Pajubá que ela encontra uma forma de expressão, de conforto e resistência, mesmo em tempos atuais.
“O Pajubá nos acolhe muito, mas também nos solidifica como comunidade, que construiu sua comunicação e o seu contexto com características especiais. Na ditadura, provavelmente salvou a vida de muitos que queriam despistar a repressão e continua sempre atualizado com os contextos do seu tempo. Eu utilizo muito no meu dia-a-dia expressões como mona, bater cabelo, mana”, conta.
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