O dia que Bolsonaro defendeu Clodovil da homofobia na Câmara
O então deputado ligado aos militares elogiou a “pureza de alma” do apresentador gay que se tornou político anti-LGBT
Uma questão unia os deputados Jair Bolsonaro e Clodovil Hernandes: a aversão ao movimento de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros. Ambos atacavam as reivindicações dos representantes da diversidade sexual.
O veterano Bolsonaro sempre se anunciou como hétero de direita, defensor dos valores conservadores da família tradicional. Já o novato em política Clodovil era homossexual declarado, porém nunca se solidarizou com outros gays e se posicionava contra pautas importantes como a união civil entre pessoas do mesmo sexo.
“Clodovil tinha homofobia internalizada”, afirmou à Veja o jornalista e na época deputado Jean Wyllys, que conviveu com o ex-estilista e apresentador na Câmara. “Ele ia a público se colocar contra as bandeiras do movimento.” Figura controversa na TV, Clodovil foi eleito majoritariamente por mulheres de classe média que haviam sido telespectadoras de seus programas.
No ambiente sabidamente heteronormativo e machista do Congresso, ele logo percebeu que sua fama pouco valia. Chegou a reclamar ao microfone da tribuna da desatenção dos colegas parlamentares durante seus discursos. De nada adiantou. Mas o deputado midiático ganhou apoio ocasional de quem menos esperava
Em 2008, ao concluir mais uma manifestação a um plenário quase vazio, o apresentador foi surpreendido por um aparte. “Chegou aqui um grupo de jovens, na faixa etária de 10 anos, tenho um filho dessa idade. A sua pureza se assemelha à dessas crianças”, disse Jair Bolsonaro.
“Se o parlamento tivesse a pureza da alma que Vossa Excelência tem; que confessa publicamente que não tem conhecimento suficiente para debater, aqui, temas com quem muitas vezes não debate pensando no Brasil, mas pensando em causa própria, o Brasil estaria muito melhor.”
Desde sempre acusado de ser homofóbico, o ex-capitão do Exército transformado em ícone da direita revelou o preconceito direcionado a Clodovil na Câmara. “Há uma certa discriminação, sim, em apartear Vossa Excelência. Alguns têm vergonha, ou simplesmente fazem algumas piadinhas, mas eu respeito a sua pureza, a sua inocência.”
Na sequência de seu pronunciamento, Bolsonaro usou a admiração por Clodovil para criticar os caciques de Brasília. “Sou diferente de Vossa Excelência em muita coisa, mas, na pureza, confesso, de vez em quando penso como Vossa Excelência. E o Brasil, e este Congresso, mostraria a força em poder mudar o nosso País se agisse um pouco mais com inocência, com pureza, com alma de criança, do que com alma de velhas raposas, astutas, sempre pensando em se perpetuar no poder.”
No final do aparte, ele desejou sucesso ao colega em primeiro mandato e disse que a “reeleição para quem é puro e honesto” se torna “muito mais difícil” do que para o político “impuro e desonesto”. Esse momento inusitado entre duas figuras públicas tão polêmicas foi usado por apoiadores de Bolsonaro na campanha eleitoral de 2018 a fim de refutar a acusação de que ele seria homofóbico.
De fevereiro de 2007 até março de 2009, quando morreu aos 71 anos, vítima de acidente vascular cerebral (AVC), Clodovil Hernandes apresentou 17 projetos e uma PEC (proposta de emenda à Constituição) à Câmara. Trabalhou em defesa de mães adotivas, vítimas de violência sexual e da prevenção do câncer de próstata. Nenhuma de suas propostas beneficiava especificamente a comunidade LGBT.
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