Comportamento

Cristãos reagem contra lgbtfobia: “O sacrifício de Jesus foi para todos”

Pastor em Maceió é um dos exemplos de acolhimento espalhados na cidade

Por Marcos Filipe Sousa 28/06/2023 09h09
Cristãos reagem contra lgbtfobia: “O sacrifício de Jesus foi para todos”
Cristãos durante Parada LGBTQIPA+ em São Paulo - Foto: Rachel Daniel / Mídia NINJA

“A Bíblia é usada como uma flor indefesa, mas também como arma para matar e machucar”. Foi citando o Frei e biblista Carlos Mesters, que o pastor da Igreja Batista do Pinheiro, Wellington Santos, iniciou o nosso papo quando fomos tratar sobre um assunto delicado, as religiões e a população LGBTQIAPN+.

O líder religioso por ser progressista, fundamenta suas palavras nas Sagradas Escrituras. Enquanto André Valadão trouxe, no início do mês a fala que “Deus odeia o Orgulho”, fazendo referência a comunidade queer. O pastor maceioense não usa suas palavras, mas as do próprio Jesus, para falar o inverso.

“O sacrifício de Jesus na cruz não foi por héteros, o sacrifício foi por toda a humanidade. É lamentável que a gente veja seu discurso sendo retocado com cores odiosas. É muito complicado não só para pessoas LGBTs, mas confesso até pra mim que sou um pastor que me identifico com uma outra mensagem, a mensagem pregada por uma minoria que muitas vezes é execrada e odiada e tratada como inimiga a ser destruída”.

E completou. “Esse não é o Deus pregado por Jesus. Isso que está aí é um ídolo. Os ídolos se alimentam de sangue. Os ídolos se alimentam de sofrimento. Os ídolos se alimentam de ódio. Jesus diz: eu não vim para condenar, eu não vim para julgar, eu não vim para ser servido. Eu vim para servir. Eu vim pra amar. Eu vim pra salvar. Então Jesus não pode ser confundido com essa coisa feia que está posta aí”.

Ele fala sobre como a bíblia é usada para reforçar discursos de ódio. “ É muito mais fácil o uso das escrituras ao seu bel-prazer. Porque as pessoas quando lhes interessa, usam para atingir o outro, mas dificilmente usam contra si mesmo, por exemplo”.

“A gente lê todos os evangelhos e foca na mensagem e na vida de Jesu. Você vai ver uma condenação veemente, o tempo todo, sobre o acúmulo de riquezas, sobre a instrumentalização da pobreza e isso a gente vê muito pouco denunciado”, argumentou.

Ele recordou que a mesma bíblia foi usada para dizer que os negros não tinham alma, sendo conivente com a escravidão. Mas anos depois, outros cristão usaram a mesma bíblia para condenar a prática. “São interpretações tóxicas, equivocadas, do porão”.

O pastor lembrou que esse tipo de situação é vivida em outras religiões também. “Temos países islâmicos em que as pessoas são condenadas à morte”.

Wellington explicou que pessoas queers, ao chegarem em sua igreja, aparecem machucadas. “Acolhemos e aceitamos ela do jeito que é, por inteira, e pedimos que desassocie o cristianismo baseado em um Jesus Institucional que foi tomado pelas megas instituições cristãs. Lembrar que a pregação do evangelho é mais do que uma pregação religiosa ou doutrinária. E focar na pessoa de Jesus”.

Pastor durante missão nas ruas de Maceió - Foto: Instagram


E deixou um recado para os LGBTQIAPN+ que desejam seguir no cristianismo. “Aqueles que se sentem nesse momento fracos e acabaram perdendo a sua fé, até porque acredito que perderam a fé na instituição. Mas Deus é muito maior do que tudo isso. E é importante que nunca esqueçam que o amor de Deus, repito, é incondicional. Lembrando que todos nós precisamos de mudanças no campo da ética, porque ela é frágil e nós aparelha-lá com a de Jesus, que é a baseada no amor ao próximo. Que Deus te abençoe”.

Papa Francisco e a abertura no Catolicismo


As declarações do Papa Francisco para as pessoas homossexuais foram muitas em seu pontificado. Palavras altamente significativas que ajudaram a derrubar tanto a perspectiva rígida de condenação por parte das hierarquias, quanto das pessoas homossexuais e suas famílias que muitas vezes se sentiram discriminados pela Igreja.

Aos católicos LGBTQIAPN+ o pontífice pediu que não entendessem a rejeição de algumas pessoas da Igreja como se fosse toda a instituição: "Gostaria que a reconhecessem não como 'a rejeição da Igreja', mas de 'pessoas na Igreja'". Analisando a parábola dos convidados à festa mencionada nos Evangelhos de Mateus e Lucas ("Os justos, os pecadores, os ricos e os pobres, etc..."), Bergoglio explicou: "Uma Igreja 'seletiva', de 'sangue puro’, não é a Santa Madre Igreja, mas sim uma seita”.

Esse movimento fez com quer grupos de leigos quisessem retornar ao seio da Igreja, surgindo grupos pastorais, como o Diversidade Católica. Católicos que procuram conciliar a fé cristã e a diversidade sexual e de gênero, promovendo o diálogo e a reflexão, a oração e a partilha, compreendendo que a salvação de Cristo e sua mensagem são para todos, sem distinção.

Os grupos espalhados pelo país, atuam desde 2007, fornecendo subsídios teológicos e pastorais, e promovendo o diálogo, a reflexão, a oração e a partilha.

Duas grandes editoras católicas publicaram livros sobre o tema. Das Edições Loyola temo “Homossexuais católicos, como sair do impasse”, onde traz experiências mundiais de acolhimento.

“Teologia e os LGBTs” é da renomada Vozes, e reflete que pensar a realidade da população LGBT+, na perspectiva da teologia, exige, antes de tudo, deixar-se sensibilizar por suas dores e conflitos penosos, bem como reconhecer seus talentos, contribuições.