Geral

Causa da morte: Cardiomiopatia hipertrófica pode ser genética ou agravada por anabolizantes

Condição é considerada uma das principais causas de morte súbita em jovens atletas

Por G1 25/05/2026 13h01 - Atualizado em 25/05/2026 13h01
Causa da morte: Cardiomiopatia hipertrófica pode ser genética ou agravada por anabolizantes
Gabriel Ganley: quem era o fisiculturista e influenciador que morreu aos 22 anos em SP - Foto: Reprodução/Redes Sociais

A cardiomiopatia hipertrófica — doença citada no atestado de óbito do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley — é uma condição que provoca o espessamento anormal do músculo do coração e pode levar a arritmias graves, insuficiência cardíaca e morte súbita.

A cardiomiopatia hipertrófica faz uma parte do músculo do coração crescer além do normal. Essa parede mais grossa deixa o coração mais rígido, dificulta a saída do sangue e pode bagunçar os impulsos elétricos que controlam os batimentos.

Durante esforço intenso, quando o coração precisa acelerar, esse sistema pode entrar em curto-circuito e provocar uma arritmia grave. Se o ritmo não for revertido rapidamente, o coração deixa de bombear sangue para o cérebro e outros órgãos, levando à parada cardiorrespiratória e à morte.

Segundo o cardiologista Elzo Mattar, diretor do departamento de hipertensão arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto, a doença pode ter origem genética ou ser adquirida ao longo da vida, inclusive com participação do uso de esteroides anabolizantes.

A forma genética é considerada uma das principais causas de morte súbita em pessoas com menos de 35 anos no Brasil e no mundo.

Esforço físico pode funcionar como gatilho

Em muitos casos, a cardiomiopatia hipertrófica permanece silenciosa por anos e só se manifesta em situações de maior sobrecarga do coração, como treinos intensos ou competições.

Segundo Mattar, o aumento acelerado dos batimentos durante o esforço pode desencadear arritmias malignas, como taquicardia ventricular e fibrilação ventricular.

“O coração entra em colapso e deixa de conseguir manter o fluxo sanguíneo adequado para o cérebro e outros órgãos. Se não houver reversão rápida, o quadro pode evoluir para parada cardiorrespiratória e morte”, afirma.

Os sintomas mais comuns incluem falta de ar, dor no peito, palpitações, tontura e desmaios. Em parte dos casos, porém, a primeira manifestação da doença pode ser justamente a morte súbita.

Como anabolizantes podem afetar o coração

Além da forma genética, Mattar alerta que a cardiomiopatia também pode ser adquirida ao longo da vida. Entre os fatores associados está o uso de esteroides anabolizantes.

Segundo o cardiologista, essas substâncias podem elevar a pressão arterial e aumentar excessivamente a carga de trabalho do coração.

“O coração passa a trabalhar contra uma resistência maior e começa a sofrer hipertrofia. Só que esse crescimento acontece de forma desorganizada”, explica.

Com o aumento acelerado da parede cardíaca, a circulação sanguínea dentro do músculo do coração pode não conseguir acompanhar o crescimento do tecido.

“O sangue chega ao músculo cardíaco por pequenas ramificações das coronárias. Quando a parede cresce muito rápido, a circulação não acompanha. Algumas células começam a morrer, gerando áreas de necrose e fibrose”, diz.

Essas pequenas cicatrizes no músculo cardíaco funcionam como um “substrato” para o aparecimento de arritmias graves.

“A fibrose favorece o surgimento de arritmias malignas”, afirma.

O especialista também alerta que os esteroides podem causar danos à microcirculação coronariana e aumentar o risco de formação súbita de coágulos.

“Um usuário pode aparentemente ter uma vida normal e, de uma hora para outra, desenvolver uma trombose coronariana aguda, evoluir para um infarto e sofrer morte súbita”, explica.

Onde entra a insulina nesse cenário

Além dos anabolizantes, Gabriel Ganley também havia relatado nas redes sociais o uso de insulina para fins estéticos e de ganho muscular.

Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que a insulina atua de maneira diferente dos esteroides e não provoca diretamente a cardiomiopatia hipertrófica. Ainda assim, ela pode aumentar os riscos quando usada sem indicação médica, principalmente em combinação com outras substâncias.

Segundo o diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Clayton Macedo, fisiculturistas usam a insulina porque o hormônio favorece a entrada de nutrientes nas células e estimula a síntese de proteína muscular. O problema é que, em pessoas sem diabetes, o uso pode provocar hipoglicemia grave — queda perigosa dos níveis de açúcar no sangue.

Macedo afirma, ainda que episódios severos de hipoglicemia podem causar confusão mental, convulsões, coma e até morte.

Além disso, o uso simultâneo de insulina, anabolizantes, estimulantes e diuréticos pode aumentar o estresse cardiovascular e favorecer arritmias, desidratação e alterações metabólicas que sobrecarregam o coração.

Diagnóstico e acompanhamento

O diagnóstico da cardiomiopatia hipertrófica costuma ser feito por exames como ecocardiograma, eletrocardiograma e ressonância magnética cardíaca.

Como a forma genética é hereditária, familiares próximos também devem ser avaliados após a confirmação do diagnóstico.

O tratamento varia conforme a gravidade do quadro e pode incluir medicamentos, restrição de exercícios de alta intensidade e, em alguns casos, implante de desfibriladores cardíacos para prevenir arritmias fatais.

No caso de Gabriel Ganley, a causa da morte ainda é investigada oficialmente. O atestado de óbito menciona cardiomiopatia hipertrófica associada a edema pulmonar e insuficiência cardíaca congestiva.