Crime da Vale: covas são abertas fora de cemitério sem espaço
Com o mar de rejeitos que atingiu Córrego do Feijão, necessidade de sepulturas em terreno improvisado deixou moradores indignados
O cemitério de Córrego do Feijão, povoado de Brumadinho, devastado parcialmente pela tragédia da Vale, ficou pequeno para receber a quantidade de corpos retirados debaixo da avalanche de lama causada pelo rompimento da barragem da mineradora, em 25 de janeiro.
Resultado: covas precisaram ser abertas do lado de fora do cemitério. A necessidade de novos túmulos fora deixou moradores do vilarejo indignados. O servente de pedreiro Sidney Aparecido da Cruz, de 44 anos, não esconde a tristeza.
Ele sepultou a irmã, que trabalhava numa pousada jogada ao chão pelo mar de rejeitos de minério, no domingo passado. E aguarda o dia em que os bombeiros vão encontrar os corpos de um sobrinho e prima que moravam numa casa erguida do caminho da avalanche.
— Vão tirar eles debaixo da lama da Vale - e vários outros - para jogar debaixo da terra do cemitério. Vamos ver o que irá acontecer, né?
Muitas vítimas da barragem moravam em Córrego do Feijão, lugarejo cercado por montanhas e bem abaixo da represa que se rompeu. Para abrir as covas ao lado do cemitério, uma área de mata nativa precisou ser devastada.
O terreno antes ocupado por árvores deu lugar a um descampado de terra batida. É ao lado do cemitério que fica o heliponto improvisado pelo Corpo de Bombeiros. As aeronaves que decolam de lá vão atrás de sobreviventes, mas, quase duas semanas depois do estouro da represa, retornam com corpos.
No último balanço, divulgado na segunda-feira (4) pelas autoridades, 134 mortos foram encontrados. Os desaparecidos somavam 199.
Entre o cemitério e a área ampliada, um muro de pedra de mais ou menos meio metro de altura. E muitas histórias tristes. Dona Gleice Cristina, que ajuda a mãe num restaurante no povoado, perdeu três amigas que moravam na mesma rua.
— Não sei se vamos conseguir enterrar todos os corpos, porque muitos continuarão debaixo da lama.
Para ela, a vida já não tem mais graça em Córrego do Feijão. Também para muitos outros moradores.
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