Pesquisa traça perfil das mulheres assoladas pela epidemia de zika em Alagoas
Elas são a face da desigualdade da sociedade brasileira: jovens, negras e indígenas, cuja maioria vivenciou a primeira gravidez ainda na adolescência, são pouco escolarizadas e fora do mundo do trabalho. Esse é o perfil das mulheres assoladas pelo zika vírus no Estado de Alagoas segundo pesquisa da Anis – Instituto de Bioética – que foi apresentada nesta quarta-feira (17, às 10h30, na sede da Defensoria Pública do Estado.
“Como alagoana, me intrigou o silêncio sobre as mulheres do pequeno estado apertado entre os gigantes da epidemia, Bahia e Pernambuco. Os estados vizinhos eram a voz da ciência das descobertas e, ao mesmo tempo, do desamparo das famílias e suas crianças de cabeça miudinha”, conta a antropóloga e pesquisadora da Anis, Débora Diniz.
Para a pesquisadora, se há ainda muito a se entender sobre a diferença entre os números de Alagoas e dos vizinhos, a vida das mulheres e das crianças documentadas pede a urgência da proteção de direitos. “Elas são majoritariamente adolescentes ou mulheres muito jovens, negras e indígenas, com pouca escolaridade, e integralmente dependentes das políticas sociais cada vez mais frágeis no país. Os números, narrativas e imagens aqui apresentados nos permitem assegurar que, se há algum paradoxo em curso na epidemia em Alagoas, é o do silêncio sobre seus efeitos para a vida das famílias, e das mulheres em particular. É já tempo de arrumarmos nossas preocupações e mensagens públicas – eliminar o mosquito vetor é, certamente, uma medida urgente de saúde pública, mas proteger os direitos e as necessidades das mulheres e crianças afetadas pela epidemia é ainda mais emergencial”, avalia.
Zika
Desde 2015, o nordeste do Brasil vem sendo o epicentro global da epidemia do vírus zika. Em abril de 2017, eram mais de 220 mil pessoas com registro de adoecimento pelo vírus. Além da magnitude da epidemia, o mais surpreendente foi a identificação de um risco adicional do vírus entre mulheres grávidas: ele pode alterar o desenvolvimento do feto, provocando a síndrome congênita do zika. Trata-se de uma alteração no desenvolvimento fetal com efeitos neurológicos diversos no recém-nascido. O sinal mais conhecido é a microcefalia, isto é, a redução do tamanho da cabeça do recém-nascido.
Metodologia
Alagoas é o primeiro estado a ter um estudo de caso abrangente – foram percorridos mais de 800 km, visitados 21 municípios, entrevistadas 54 mulheres com crianças confirmadas ou descartadas pelos critérios vigentes no momento do nascimento ou por atendimentos de puericultura. As regiões percorridas são as do Agreste, Sertão, Alto Sertão e Litoral. A pesquisa de campo foi realizada em dezembro de 2016 e, na ocasião, o Ministério da Saúde registrava 86 crianças como confirmadas para a síndrome congênita do zika e como em investigação em Alagoas. A busca ativa das famílias partiu de diferentes fontes, tais como: registros oficiais de vigilância epidemiológica (municipais, estaduais e federais), grupos de WhatsApp entre mães de crianças com a síndrome congênita do zika, equipes de saúde de centros de referência, testemunhos comunitários.
Accese o relatório: https://www.dropbox.com/s/mmmmdk1et5xo1yv/Zika%20em%20Alagoas%20-%20a%20urg%C3%AAncia%20dos%20direitos.pdf?dl=0
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