Há um ano, Dilma Rousseff sofria impeachment e deixava presidência
O tempo passou, Brasil ainda vive grave crise política e Dilma assumiu papel secundário na política brasileira.
Em 31 de agosto de 2016, a primeira mulher eleita para presidente do Brasil, Dilma Rousseff (PT), era condenada a perder o mandato pelo Congresso Nacional, abrindo espaço para a posse do presidente Michel Temer (PMDB). A derrocada de Dilma foi o segundo impeachment da República brasileira. O primeiro foi o do ex-presidente Fernando Collor, em 1992. Há um ano, o processo ainda é alvo de controvérsias, com o PT chamando a condenação de "golpe parlamentar", enquanto os adversários ressaltam a má gestão e as "pedaladas fiscais" promovidas pela petista no governo para justificar o crime de responsabilidade.
“Se eu perder, eu estou fora do baralho”, resumiu Dilma Rousseff, em abril do ano passado. Desde que deixou o Palácio da Alvorada, evitando uma simbólica descida de rampa, a petista tem sido uma figura secundária na política nacional. Vez por outra, dá sinais ao PT que pode concorrer a deputada ou senadora, já que teve os direitos políticos preservados pelo impeachment. Os governadores do Piauí, Wellington Dias (PT), e do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), fizeram convites formais para que a petista mude o domicílio eleitoral para disputar o Senado.
A ex-presidente mora em Tristeza, bairro de Porto Alegre, mas costuma viajar para o apartamento em Ipanema, no Rio de Janeiro, e uma casa que pertence à mãe, em Belo Horizonte. Depois que deixou a presidência, Dilma fez turnê internacional de palestras acusando o impeachment de ser um golpe parlamentar. Também participou de alguns eventos de esquerda no Brasil, incluindo o Congresso Nacional do PT e a visita do antecessor, Lula, à Transposição do Rio São Francisco. Tem se dedicado à leitura e aos netos e promete escrever um livro sobre o impeachment.
De formação brizolista, Dilma foi filiada por 22 anos ao PDT, após ser anistiada como ex-militante da luta armada. Ingressou no PT em 2001, às vésperas da campanha vitoriosa de Lula à presidência. Passou com imagem de gerente pelos ministérios de Minas e Energia e da Casa Civil, mas nunca foi do núcleo duro que comandava o PT. Isso ajuda a explicar por que ela tem pouca voz na legenda pela qual se elegeu duas vezes para o mais alto cargo da República, ocupando apenas uma função no Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo.
CRISE POLÍTICA
Fruto de erros de anos na economia e na política, Dilma já não governava nos últimos dias como presidente e não tinha base parlamentar que lhe fizesse aprovar uma simples matéria no Congresso Nacional. Mesmo assim, sua saída não representou o fim da crise política que se acentuou com a revelação das gravações da JBS, em maio deste ano.
Engolfado na maior operação contra a corrupção de sua história, o Brasil continua a assistir ao Planalto no epicentro da crise. Temer teve que convencer o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a fechar os olhos para irregularidades na campanha de 2014, foi formalmente denunciado e segue na mira da Procuradoria-Geral da República, nomeou vários ministros entre os investigados pela Lava Jato. Os principais presidenciáveis e os cabeças do Legislativo também não escaparam da operação. Só nas delações da Odebrecht e da JBS, 571 políticos foram citados.
DESCRENÇA
Soma-se às encrencas na Justiça e à fragilidade do governo, o profundo distanciamento entre os políticos e a sociedade. Pesquisa do Ibope mostra que menos de 20% dos brasileiros confiam no Congresso, nos partidos políticos e no presidente da República. Todos esses números tiveram queda drástica desde a última corrida presidencial, em 2014. Apenas 35% disseram confiar nas eleições. Isso é metade dos 70% que acreditam na Polícia Federal e dos 68% que confiam nas Forças Armadas.
Emparedados pela perspectiva de que fustigar o governo pode fortalecer o projeto eleitoral do PT, mesmo movimentos de rua que ganharam força no impeachment – como o Vem Pra Rua – evitaram fazer manifestações contra um governo igualmente sócio da corrupção.
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