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O glossário dos incels: entenda como o grupo se comunica

Os incels brasileiros seguem difundindo crime e mensagem de ódio às mulheres na internet. Eles usam uma linguagem própria nas conversas

Por 7Segundos com Metrópoles 28/03/2025 16h04
O glossário dos incels: entenda como o grupo se comunica
Cultura tem se difundido rapidamente no Brasil - Foto: Reprodução/Metrópoles

Os chamados incels voltaram a ser assunto com o sucesso da minissérie “Adolescência“, da Netflix. A obra de ficção, baseada em casos reais, mostra a história de um adolescente de 13 anos que mata uma colega de escola a facadas. A série viralizou e fez até escolas indicarem a obra a pais de alunos com objetivo de conscientizá-los sobre a necessidade de prevenir esse tipo de problema em casa.

Enquanto isso, incels brasileiros seguem difundindo crime e mensagem de ódio às mulheres na internet.

Os chamados celibatários involuntários são homens que se sentem rejeitados pelo sexo feminino, que passa a ser tratado como culpado por seus problemas. Eles se reúnem em fóruns anônimos conhecidos como “chans”, que funcionam na chamada dark web e têm diferentes graus de misoginia. A chamada dark web é uma rede de sites e conteúdos acessíveis somente via software específico, como o Tor.

As postagens anônimas possibilitam que, além de apologia a assassinatos, sejam difundidos conteúdos racistas e pedófilos.

Anões, Chads e Stacys

Há toda uma linguagem própria, em que eles referem-se a si mesmos como “anões”. Os homens sexualmente ativos e desejados pela maioria das mulheres são “Chads”, enquanto as mulheres atraentes são “Stacys”. Para se referir às pessoas que não fazem parte da sua subcultura, usam a expressão pejorativa “normies”.

Em um dos fóruns verificados pela reportagem, um dos usuários repercute a série Adolescência. Ele reclama do suposto uso errado desse conceito, misturando com o termo red pill (menção ao filme Matrix, onde a pílula vermelha representa o acesso à verdade, que no caso desse grupo é uma cultura masculinista e misógina).

“A regra 80/20 é universal, pode ser observada em plantações de ervilha, negócios, produtividade, treinos, etc, mas originalmente nos livros a proporção não chega a ser ‘os 20% mais desejados’, o número é menor, e nesse pequeno detalhe tu já percebe a desonestidade do diretor da série”, critica um deles.

O grupo possui uma linguagem própria para se comunicar. O Metrópoles preparou um pequeno glossário para explicar.

Glossário

Incel – O termo abreviado de involuntary celibate (celibatário involuntário) faz referência a uma comunidade de homens que se consideram incapazes de atrair parceiras românticas ou sexuais, frequentemente adotando discursos misóginos e de vitimização.

Red Pill – Conceito inspirado no filme Matrix, usado por grupos masculinistas para descrever uma suposta “verdade oculta” sobre a sociedade, que incluiria a ideia de que os homens são explorados pelas mulheres e pelo feminismo.

Chad – Gíria usada por incels para descrever homens considerados extremamente atraentes, bem-sucedidos e desejados pelas mulheres.

Stacy – Termo equivalente a Chad, mas usado para se referir a mulheres consideradas muito atraentes e populares.

Normie – Expressão pejorativa para pessoas comuns que seguem normas sociais convencionais, sem se envolverem em subculturas específicas, como a dos incels.Sancto/sanctum – Santo em latim, o termo é usado para glorificar ações criminosas.

CP – Child porn (pornografia infantil).

Anões – Como os usuários de chans brasileiros costumam se referir a si mesmos.

Chan – Termo usado para se referir a imageboards (fóruns anônimos baseados em imagens). Esses espaços são conhecidos por discussões sem moderação rígida e por servirem de ponto de encontro para diversas subculturas, incluindo comunidades extremistas.

Dark Web – Parte da internet que não é indexada por mecanismos de busca tradicionais e requer softwares específicos, como o Tor, para ser acessada. É conhecida por abrigar fóruns anônimos e atividades ilegais.

Tor – Sigla para The Onion Router, um software que permite a navegação anônima na internet, sendo amplamente utilizado para acessar a Dark Web e preservar a privacidade online.

O Metrópoles mergulhou em diversos fóruns do tipo na ativa, que divulgam conteúdo como ódio às mulheres, racismo e apologia a assassinatos em massa. Apesar da óbvia ilegalidade desse tipo de conteúdo, os grupos seguem na ativa, a poucos cliques de qualquer criança ou adolescente.

Culto aos massacres


Um desses fóruns chegou a cair no radar da polícia em 2019 após a informação de que os perpetradores do massacre em uma escola de Suzano (Grande SP) estavam entre seus frequentadores anônimos. Após algumas idas e vindas, ele segue em atividade até hoje. “Minha escola está cheia de putas, gays e traficantes. Quem sabe se ano que vem eu realize meu Actum Sanctum”, escreveu um dos usuários do fórum na segunda-feira (24/3).

Actum sanctum é como essas pessoas definem crimes como o de Suzano, cujos assassinos são tratados como heróis, em um panteão do qual fazem parte também diversos assassinos de mulheres. Na época do massacre de Suzano, que teve um saldo de dez mortos, incluindo dois assassinos, um dos usuários do fórum chegou a comemorar o crime. “Homens de bem honrados”, escreveu abaixo da foto dos assassinos. “Temos os nossos primeiros atiradores sanctos”, disse outro.

Um dos frequentadores desse fórum se descreveu recentemente como incel que “nunca sequer peguei na mão de alguma menina” e diz ter vontade de estuprar uma colega de escola. Logo aparece alguém para incentivá-lo: “Massacre é o único caminho. Você tem alguma arma de fogo aí, confrade? Se não, vai na arma branca mesmo. Até que vai ser mais excitante encravar o facão no estômago daquelas vagabundas”.

O mesmo site também tem racismo e pedofilia, com crianças nuas em uma aba chamada “fofinhas”. Mesmo em fóruns onde a pornografia infantil é teoricamente proibida, a reportagem localizou esse tipo de conteúdo disfarçado. “Eu sei que CP [chid porn] é proibido, mas jovens meninas vestidas está permitido”, questiona um dos usuários, postando fotos de meninas jovens com pouca roupa.

Ódio às mulheres

O que une boa parte dos “chans” é o racismo e a a crença de que mulheres são um “ser inferior, escrava natural de todo Homem”, assim mesmo, com H maiúsculo. Ou simplesmente “putas mentirosas”, como escreveu outro.

A reportagem encontrou casos de dados pessoais, como nome e endereço de mulheres, sendo divulgados. Em uma publicação de janeiro, esses dados foram publicados em um título que encorajava violência contra essa jovem.

Há toda uma linguagem própria, em que eles referem-se a si mesmos como “anões”. Os homens sexualmente ativos e desejados pela maioria das mulheres são “Chads”, enquanto as mulheres atraentes são “Stacys”.

Assim como na série “Adolescência”, acredita-se também à regra 80/20, uma narrativa de que 80% das mulheres se interessam apenas por 20% dos homens. Na série, o jovem que assassina uma colega era visto como um incel que não estaria entre esses poucos escolhidos.

Em um dos fóruns verificados pela reportagem, um dos usuários reclama do suposto uso errado desse conceito, misturando com o termo red pill (menção ao filme Matrix, onde a pílula vermelha representa o acesso à verdade, que no caso desse grupo é uma cultura masculinista e misógina). “A regra 80/20 é universal, pode ser observada em plantações de ervilha, negócios, produtividade, treinos, etc, mas originalmente nos livros a proporção não chega a ser ‘os 20% mais desejados’, o número é menor, e nesse pequeno detalhe tu já percebe a desonestidade do diretor da série”, critica um deles.