Famílias de vítimas de viaduto que desabou em Minas no Mundial esperam reparação
Caso aconteceu em julho em 2014 e nenhuma indenização foi paga
Quando o Brasil estrear neste domingo na Copa do Mundo na Rússia, Analina Soares Santos não estará em frente à televisão. Em 3 de julho de 2014, cinco dias antes do 7 a 1, a dona de casa de 55 anos perdeu a filha Hannah, então com 24 anos e motorista do micro-ônibus destruído pela queda da alça sul do viaduto Batalha de Guararapes, na Região Norte de Belo Horizonte.
Para Analina, é impossível dissociar o trauma da perda de Hannah da Copa:
— Eu era apaixonada com futebol e Copa do Mundo, como a minha filha também era. Mas tudo aconteceu por causa da pressa que eles tinham de fazer bonito por causa da Copa. Agora só quero que acabe bem rápido — disse.
Quatro anos depois, nenhuma indenização foi paga. Segundo Analina, os responsáveis repuseram apenas o ônibus, que era de propriedade da família. Ana Clara, filha da motorista, com apenas 4 anos na época, recebeu um mês e meio de tratamento psicológico coberto pela Construtora Cowan, contratada pela prefeitura para o viaduto. As sessões seguem até hoje, mas Analina afirma que são pagas pela família.
A doméstica Cristilene Pereira Sena, de 36 anos, ficou viúva na queda. O marido, Charlys Frederico Moreira do Nascimento, de 25 anos, estava indo buscar a esposa no trabalho quando teve o Fiat Uno prensado pelo concreto. Desde então, ela diz que não viu nem um centavo em indenização. O acompanhamento com psicólogo, também pago pela construtora, durou apenas dois meses. Ficava próximo ao antigo trabalho, que ela também largou por ter de passar todos os dias no local da tragédia.
— Não recebi nada, nada. Estou passando dificuldade. E isso tudo aconteceu por causa da Copa, agora está todo mundo preocupado com a Copa, que nem na época — afirma Cristilene.
Assim como as famílias de Hannah e Charlys, os moradores dos condomínios Antares e Savana, ao lado de onde ficava a alça, aguardam pela reparação de danos nos prédios. Com tanta espera, alguns dos 400 inquilinos e proprietários, contabilizados pela defesa, perderam as esperanças.
— Eu não acredito que vá receber algo. Talvez os netos dos meus filhos, ou nem eles — resume o tatuador Paulo Henrique Mello Tavares, de 38 anos.
O tremor da queda trincou as janelas, estufou os azulejos e rachou o vaso sanitário do apartamento de Paulo. Para consertar, pagou R$ 4 mil do próprio bolso.
Os traumas afetaram gravemente os moradores do Antares e do Savana. Num laudo psicológico requisitado pela advogada Ana Cristina Campos Drumond, que representa os moradores, a profissional responsável identificou 17 pessoas em situação extrema de transtorno pós-traumático e, entre elas, três casos de tentativa de suicídio.
— Houve aumento de ansiedade, síndrome de pânico, crianças com insônia, pessoas usando medicamentos tarja preta por conta própria e alcoolismo. Aquele local ficou marcado pela morte — conta a doutoranda em Psicologia Social pela UFMG Andréa Regina Marques Chamon, que fez o acompanhamento voluntariamente.
Segundo a Cowan, não há decisão judicial que a aponte como culpada pela queda. A empresa diz que, mesmo assim, assumiu os danos materiais das vítimas e nos imóveis, tendo gastado R$ 10 milhões na reparação, além de oferecer psicólogos e assistentes sociais. Afirma que laudos apontam responsabilidade da Consol, contratada pela Sudecap (Superintendência de Desenvolvimento da Capital) no projeto do viaduto. Já a Consol diz que o projeto foi alterado sem o conhecimento da empresa e que não foi chamada pela Sudecap para acompanhar a execução da obra. A Sudecap informou que a prefeitura de BH garantiu atendimento às vítimas e colaborou com a apuração de causas e responsabilidades do acidente.
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