Caetano: Pessoas estão "prestes a perder a liberdade" democrática no BR
O cantor participou de uma videoconferência sobre o Festival de Veneza, onde foi exibido um documentário sobre a sua prisão durante a ditadura militar.
O cantor Caetano Veloso disse hoje que as pessoas estão "prestes a perder as liberdades" democráticas no Brasil, numa videoconferência sobre o Festival de Veneza, onde foi exibido um documentário sobre a sua prisão durante a ditadura militar.
"Por trás da aparência de uma democracia, há no Brasil uma ameaça mais sutil, menos clara. Há uma estrutura autoritária, quase uma doença (...) que corrompe os princípios democráticos, impede a circulação de ideias e a afirmação de direitos", afirmou o cantor.
Veloso, de 78 anos, não pôde fazer a viagem até a cidade italiana de Veneza devido às restrições ligadas à crise sanitária da pandemia de covid-19, mas o documentário "Narciso em Férias", sobre parte de sua vida, foi apresentado no evento fora do circuito de competição.
No filme, Caetano faz uma retrospectiva da sua permanência na prisão, por 54 dias, durante o período da ditadura militar (1964-1985). O filme mostra traz um testemunho íntimo e comovente do cantor sobre os dias em que esteve preso, no ano de 1968, por ordem de agentes da ditadura.
"A situação é diferente da de 1968, mas a forma de gerir a coisa pública no meu país não corresponde ao menos a de uma democracia", frisou o cantor, referindo-se ao Governo liderado pelo Presidente Jair Bolsonaro, cujo nome ele se recusou a mencionar.
"Na época havia uma ditadura explícita, hoje estamos prestes a perder as liberdades democráticas", acrescentou o cantor, ícone de toda uma geração que lutou contra o regime militar autoritário, que tem sido exaltado pelo atual presidente.
No filme, que não inclui outras entrevistas, Caetano relê um interrogatório contra ele realizado pela polícia, que foi recentemente encontrado, no qual ele é acusado de "terrorismo cultural" por ter mudado a letra do hino nacional.
"Foi muito comovente. Não fazia ideia da sua existência. Este documento reapareceu antes das filmagens do filme graças à investigação de uma comissão para a verdade", especificou.
"Lembre-se, foi uma catarse para mim. Saí de casa pensando em gravar uma entrevista e, em vez disso, me vi 50 anos atrás, com uma história que guardei para mim por tanto tempo, e que me emocionou muito", concluiu.
O 77.º Festival de Cinema de Veneza começou no último dia 02 e termina no próximo sábado.
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