Educação

Espectro Autista: quando a dor do outro e a empatia se transformam em Ciência

Mateus Feijó observou o sofrimento de um professor, dos colegas, o seu próprio e resolveu criar um aplicativo para ajudar pessoas com TEA

Por Marcos Filipe Sousa 27/01/2024 08h08 - Atualizado em 27/01/2024 16h04
Espectro Autista: quando a dor do outro e a empatia se transformam em Ciência
Mateus Feijó quer app em todas as escolas públicas - Foto: Cortesia

Ter empatia pelo outro levou o aluno Mateus Feijó, de 15 anos, da Escola Estadual Princesa Isabel, localizada no Cepa [Centro Educacional de Pesquisa Aplicada], iniciar a criação da “Rede Itech”. Aplicativo que reunirá em uma comunidade virtual de apoio, pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e profissionais da Educação, Saúde e Comunicação.

Para entender a origem do projeto é preciso voltar no tempo, quando Mateus cursava o ensino fundamental em uma escola da rede privada. Entre seus professores, havia um de inglês que possuía TEA em nível moderado e que durante as aulas sofria com zombaria e piadas dos alunos. Isso incomodava o jovem porque ele também é uma pessoa autista, contudo em nível leve.

Anos depois, desta vez, em uma nova escola, presenciou cenas parecidas. Eram colegas de classe que passavam por situações semelhantes. A dor dos outros e a sua se acumulou e na cabeça do jovem se transformou em projeto, fecundado durante as aulas do professor Rafael Holanda, que trabalha na área de tecnologia e empreendedorismo com os estudantes.

Mateus explicou que sempre teve certeza do objetivo do projeto. “Queremos procurar uma solução para que as pessoas com TEA convivam em qualquer ambiente social e se protejam de qualquer tipo de preconceito”.

Mateus Feijó apresenta projeto em evento na UFAL (Foto: Cortesia)
Mateus Feijó apresenta projeto em evento na UFAL (Foto: Cortesia)

Com as metas estipuladas e ao lado do professor, o estudante iniciava a sua jornada científica através do Projeto PIBIC Júnior da Fapeal [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas].

Em um primeiro momento, com ajuda de outros profissionais da unidade de ensino, Mateus reunia presencialmente os alunos em rodas de conversas, ouvindo como eram suas vidas dentro e fora da comunidade escolar.

O projeto seguiu, entretanto algo chamou a atenção do aluno e professor. No grupo criado em um aplicativo de mensagem, as conversas eram mais fluidas e os participantes acabavam se sentindo mais confortáveis em expor seus pensamentos. Essa dinâmica comunicacional inspirou a criação do aplicativo. Nasce a Rede Itech.

“O software reunirá pessoas com TEA, orientações e profissionais que auxiliem a comunidade escolar. É o que chamamos de tecnologia assistida”, e completou Mateus: “Além dos dispositivos móveis, também queremos implantar em qualquer eletrônico das unidades”.

Quem acompanha Mateus na jornada científica é outra aluna da mesma escola, Graziella de Lima, de 17 anos.

“Tive uma professora que tinha um filho com TEA e nos contava sobre as dificuldades do cotidiano que ela enfrentava já que o filho tinha nível mais severo do transtorno. A sua história se une com a de outras pessoas, como colegas de sala de aula que se sentem invisíveis. A inclusão é a base do nosso projeto”, comentou.

Professor Rafael Holanda e Mateus durante premiação na UFAL (Foto: Cortesia)
Professor Rafael Holanda e Mateus durante premiação na UFAL (Foto: Cortesia)

O projeto foi premiado, em outubro do ano passado, na Semana Interinstitucional de Pesquisa, Tecnologia e Inovação na Educação Básica (Sinpete) promovida pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

“Estamos passando por capacitação e acompanhamento com professores das áreas de Educação, Tecnologia e Comunicação, transformando o protótipo em objeto real”, explicou Graziella.

O professor Rafael Holanda, que acompanha o projeto dos alunos, falou da importância em apoiá-los nessa jornada. “No início, o Mateus foi sendo desafiado, aprendendo sobre programação, fazendo a estrutura básica, chegando inclusive a testar em outras escolas do Cepa”.

Ele ressaltou a importância de apoiar estudantes que surjam com ideias e queiram explorar o campo da ciência. “Imagina você encontrar um aluno que tem uma problemática, e consegue de forma brilhante encontrar as soluções. Para mim, enquanto educador é uma realização pessoal e profissional, ajudá-los a evoluir”.

Rafael confirmou que o projeto de Mateus e Grazielle já gerou outras ramificações, com subprojetos, ao todo são dez. “Deste grupo, sete foram premiados pela UFAL no ano passado”.

A importância do app para a comunidade escolar

Patrick Cadete é professor de Educação Especial na mesma escola que surgiu a “Rede Itech’. Ele serviu como consultor para o projeto, sendo a ponte de comunicação entre seus alunos e os cientistas juniores.

Inicialmente é preciso entender o papel da educação especial dentro do processo de aprendizagem. Ela serve como suporte para identificação do público-alvo dessa modalidade de ensino, que é transversal a todas as etapas escolares, como nos explicou: “Garantimos que os direitos de aprendizagem dos alunos com deficiência sejam respeitados e postos em prática ao mesmo tempo que desenvolvemos um trabalho em parceria com os professores de sala de aula regular e equipe gestora, oportunizando uma aprendizagem significativa na vida desses estudantes”.

Patrick detalhou que os alunos com TEA apresentam variados tipos de dificuldades em sala de aula, como a comunicação e interação social, atraso de fala, má interpretação por parte de outros estudantes de comportamentos externados. “Devemos lembrar que cada ser humano é único, assim sendo, a dificuldade encontrada por um autista numa sala de aula, é diferente de outro aluno com TEA em outra sala”.

A integração e acolhimento faz toda diferença, ressaltou o professor. Eles proporcionam aos estudantes com TEA uma sensação de pertencimento àquilo que é seu por direito. “Uma educação de qualidade e o convívio fraterno com os seus semelhantes, oportuniza a consolidação de memórias e momentos positivos que contribuirão com seu desenvolvimento ao longo da vida”.

Para ele, foi uma “experiência singular” colaborar de alguma maneira com a concretização do projeto de Mateus. O professor mediou a organização de suas ideias quanto aos objetivos esperados e uma melhor definição das metas que deveriam ser alcançadas de maneira clara e sucinta e colocadas em prática, posteriormente. “O mérito é todo dele que teve a ideia e pôs a mão na massa para que o projeto se tornasse realidade”.

Alunos da Escola Estadual Princesa Isabel foram os primeiros alvos do projeto (Foto: Cortesia)
Alunos da Escola Estadual Princesa Isabel foram os primeiros alvos do projeto (Foto: Cortesia)

Como educador especial, Patrick vê no aplicativo um grande passo dado em direção a uma eficaz garantia de acessibilidade a pessoas com TEA, de modo particular no que se refere à expressão de sua autonomia.

“Será mais um forte aliado na desconstrução de barreiras e paradigmas impostos por quem acha que a pessoa com deficiência não tem potencialidades a serem desenvolvidas e que muito podem contribuir com o desenvolvimento da sociedade. E espero que o software possa ser aprimorado para que pessoas com outras deficiências possam ser contempladas com benefícios semelhantes aos proporcionados pela Rede Intech, e que novos projetos como esse desenvolvido por Mateus surjam cada dia mais através dessa garotada”.

O incentivo que leva à inclusão


O projeto dos alunos Mateus Feijó e Grazielle de Lima fazem parte do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) Junior da Fapeal, formatado para estimular o ingresso no Ensino Superior e despertar novas vocações científicas em alunos da Educação Básica.

A coordenadora do projeto, Ábia Marpin, explicou que para a instituição, estimular e subsidiar a iniciação científica nesta etapa da escolarização é importante, pois cria possibilidades da juventude alagoana seguir a trilha do conhecimento, fomentando talentos e desenvolvendo habilidades fundamentais para uma vida plena. “As políticas públicas como o Pibic Jr Alagoas dão sustentabilidade para o ecossistema de inovação do Estado, qualificando pessoas que futuramente irão atuar profissionalmente no segmento da Ciência, Tecnologia e Inovação”.

A professora coloca que um dos efeitos positivos de permitir e encorajar o protagonismo da juventude é que, ao contrário do que as pessoas possam imaginar, esses jovens têm trazido para a discussão questões estruturantes e fundamentais para o desenvolvimento tecnológico e humano de Alagoas.

“A inclusão de pessoas do espectro autista é uma dessas questões, que vêm à tona quando somos capazes de ouvir e apoiar a criatividade dos nossos estudantes da rede pública estadual”, disse.

Ábia Marpin (Foto: João Monteiro)
Ábia Marpin (Foto: João Monteiro)

Atualmente, a Fapeal atua na Educação Básica com programas como o Professor Mentor, Grêmio que Cria e o Programa de Bolsas de Iniciação Científica na Educação Básica.

“Todas essas políticas atendem a critérios definidos em editais próprios, que estão todos disponíveis em nosso site. O acompanhamento se dá por meio de relatórios técnicos regulares, reuniões de avaliação e planejamento, eventos públicos e visitas in locus”, informou.

Para entender o Transtorno do Espectro Autista


O TEA é o transtorno do neurodesenvolvimento, uma condição que promove o desenvolvimento atípico do cérebro, que leva a alterações da sua função, prejudicando principalmente a sociabilidade e a comunicação, por conta do processamento sensorial atípico.

Responsáveis e professores devem ficar atentos na sala de aula (Ilustração/ 7Segundos)
Responsáveis e professores devem ficar atentos na sala de aula (Ilustração: 7Segundos)

O psiquiatra Dieggo Melo explicou sobre a relação do TEA no processo de aprendizado escolar. “O indivíduo tende a apresentar dificuldades nas interações sociais e na linguagem verbal desde os primeiros anos de vida, quando tipicamente se observa uma regressão na aquisição de marcos do desenvolvimento”.

No caso do TEA temos um espectro de manifestações, onde cada indivíduo apresenta características próprias e com diferentes níveis de acometimento.

“Em geral vamos observar uma tendência ao isolamento social, com ausência de resposta ao chamado, pouco contato visual direto, um brincar repetitivo, sem simbolismo, onde a criança não se engaja em historinhas ou imitações durante as brincadeiras” e completou: “Além de uma gama de comportamentos restritos e repetitivos, hipersensibilidade a determinadas frequências de som ou estímulos tateis ou visuais, o que pode acarretar em crises de agitação, auto ou heteroagressividade e ainda insônia”.

Na vida escolar, a atenção deve ser ainda maior. “A criança com TEA normalmente apresenta o que chamamos de sameness, uma espécie de apego à rotina. Logo, tudo que leve a uma alteração da sua rotina, seja no ambiente, ou mesmo o contato com pessoas novas, ou novos estímulos, podem desencadear crises”.

O psiquiatra reforçou que toda adaptação ambiental deve ser gradual e cada criança apresenta desconfortos muito particulares. “O profissional de educação que acompanha deve ter bastante habilidade na identificação dos estímulos que podem se tornar nocivos para aquela criança em específico. O ideal então é que ela receba um investimento escolar específico que atenda às suas necessidades especiais”.