Limpeza de óleo deixa voluntários com dores e sintomas de intoxicação no Nordeste
Mais de 2.000 quilômetros do litoral brasileiro foram afetados por derramamento de petróleo.
Voluntários que se deslocam para praias do Nordeste para limpar o misterioso óleo que polui mais de 100 praias da região estão ficando doentes por coletar o lodo tóxico sem o equipamento adequado, disseram autoridades de saúde nesta sexta-feira (25).
Depois que as manchas de óleo atingiram praias ao longo de mais de 2.000 quilômetros, centenas de pessoas se mobilizaram para limpar as praias, muitas usando as mãos e os pés descobertos por falta de luvas, botas ou até máscaras para bloquear a fumaça.
“No domingo eu fui com uma amiga recolher óleo no mangue. Eu tinha uma luva fina que levei de casa, mas não estava com máscara nem com botas. Eu tive contato com o petróleo, minhas pernas ficaram todas sujas de óleo”, disse a funcionária pública Vera Lúcia Silva, acrescentando que ela e uma amiga coletaram 80 kg de óleo com as mãos em sacos de plástico na praia de Itapuama, no sul do Recife.
“Eu passei muito mal dois dias depois. Muita dor de cabeça, náusea e diarréia. Fui no posto [de saúde], tomei soro e melhorei, mas ainda sinto dor de cabeça.”
Vera Lúcia afirmou que as autoridades locais não forneceram equipamentos e depois de dois dias vários grupos de caridade apareceram e entregaram máscaras e botas.
O lodo espesso apareceu há quase dois meses, e autoridades e especialistas têm sugerido várias teorias sobre sua origem. Acredita-se que seja petróleo venezuelano, mas não há evidências de como entrou no mar aberto.
Uma coalizão de voluntários, funcionários públicos e militares foi às praias para salvar tartarugas e outros animais, coletando o óleo em sacos, com níveis variados de treinamento e apoio.
A Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco disse na quinta-feira que 19 pessoas foram tratadas em hospitais por intoxicação, seja por contato direto com o óleo ou pelos solventes usados para diluí-lo nos esforços de limpeza. A mídia local informou que centenas relataram sintomas, mas não procuraram tratamento.
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que isso ainda não causa preocupação. “A gente tem visto pessoas procurarem unidades de saúde, mas eles informam que retiraram o óleo com benzina, gasolina, querosene”, disse.
Ele acrescentou que o governo faz estudos sobre o impacto na cadeia alimentar. “Até o momento, a gente não tem nenhum alerta.”
O vazamento de petróleo tem se espalhado pelos nove estados do Nordeste desde o início de setembro. Até quarta-feira (23), 1.000 toneladas foram recolhidas de praias da região.
Gerald Graham, especialista canadense em resposta a vazamentos de óleo, disse que as autoridades deveriam manter as pessoas afastadas das praias caso não sejam treinadas e equipadas, porque a exposição ao óleo é muito perigosa e pode causar ferimentos ou até mesmo a morte.
“A resposta do governo tem sido realmente patética. Eles não estavam lá. Por que demoraram tanto tempo para agir?”, afirmou ele em entrevista por telefone.
O governo disse que seguiu protocolos padrão desde o início do desastre ambiental. Como o petróleo bruto não flutua na superfície do oceano como a maioria das manchas de petróleo, as autoridades argumentaram que os métodos tradicionais de mantê-lo fora da costa têm sido ineficazes.
Nesta sexta-feira, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, visitou Porto de Galinhas, ponto turístico de Pernambuco. Ele mergulhou os pés no mar para mostrar que as praias do país estão limpas e abertas para negócios, com menos de 10% das praias de Pernambuco afetadas pelo petróleo, segundo ele.
“Tudo o que a gente quer e deseja é vencer com responsabilidade esse momento mais difícil. E quando eu digo com responsabilidade, eu digo aqui por parte da imprensa também, que a imprensa possa realmente nos ajudar a vencer esse momento, [ela] é um parceiro fundamental nesse momento difícil”, disse.
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