Solidariedade de Lula à Venezuela pode travar negociações do tarifaço, avaliam especialistas
Professores veem risco diplomático na fala do presidente, mas avaliam que impacto dependerá da resposta dos EUA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (5) que vai participar da cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), na Colômbia, para “prestar solidariedade” à Venezuela diante dos ataques dos Estados Unidos.
A declaração, que reforça a aproximação de Brasília com Caracas, provocou avaliações divergentes entre especialistas em relações internacionais ouvidos pelo R7.
Advogada e professora de direito internacional da USP (Universidade de São Paulo), Maristela Basso considera a fala de Lula “totalmente desnecessária” e com potencial para prejudicar as negociações comerciais em andamento.
“Não é a primeira declaração inapropriada do presidente Lula. Na anterior, o presidente Trump fez vistas grossas. Nessa última, provavelmente não fará. É uma lástima que Lula priorize os parceiros ideológicos em detrimento dos interesses do Brasil”, criticou.
Professora de relações internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker avalia que a sinalização do governo brasileiro é arriscada neste momento, especialmente pela sensibilidade do presidente americano, Donald Trump, a alianças que ele percebe como sendo de esquerda.
“Trump pode entender que é uma ação coletiva contra os Estados Unidos, romper o processo de negociação e voltar às investidas contra o Brasil”, avalia Holzhacker.
Segundo a professora, o gesto de Lula pode ser entendido de duas formas: como tentativa de alavancar a posição do Brasil nas negociações bilaterais ou como um movimento que provoque desconfiança em Washington.
No cenário mais favorável, o Brasil se coloca como um possível mediador entre os Estados Unidos e a Venezuela, usando sua interlocução com Caracas para manter canais diplomáticos abertos. No cenário negativo, afirma Denilde, “Trump pode puxar o freio de mão”, diminuindo o ritmo das negociações tarifárias em andamento.
Ela lembra ainda que o gesto brasileiro é simbólico e que o impacto real dependerá do tom da fala de Lula na cúpula da Celac. “Acho que a gente volta numa fase de incerteza muito grande para entender qual é a reação do próprio Trump frente a essa sinalização”, opina.
Lula se preocupa com conflito, diz professor
Professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB (Universidade de Brasília), Roberto Goulart Menezes tem uma leitura distinta.
Para ele, Lula não manifestou apoio ao governo de Nicolás Maduro, mas a um país soberano da América do Sul, em um contexto de preocupação com uma possível escalada militar dos Estados Unidos.
“A manifestação do presidente Lula é de alguém que está preocupado com um conflito que pode levar a uma insegurança generalizada na América do Sul. Creio que o Brasil não está, com essa declaração, querendo formar um bloco na região — isso nem seria possível —, para se contrapor a uma possível investida dos Estados Unidos”, explicou Menezes.
O professor destaca que o Brasil se coloca como liderança regional e que Lula tem calculado cada palavra para equilibrar a posição entre a defesa da soberania venezuelana e a manutenção do diálogo com Washington.
Segundo Menezes, a presença de Lula é fundamental para a relevância da Celac, e o fato de o presidente ter decidido comparecer indica que o Brasil vê urgência na questão.
“Uma cúpula sem a presença do Brasil e do México, os dois principais países que integram a Celac, seria uma cúpula esvaziada, que não repercutiria tanto. Quando o presidente Lula coloca que o tema da Celac deve ser centralmente a questão de uma possível invasão da Venezuela por parte dos Estados Unidos, ou mais do que isso, de uma ameaça iminente à segurança regional, ele coloca a reunião da Celac em outro patamar”, analisa.
Para o professor da UnB, a fala de Lula não deve afetar diretamente as negociações sobre o tarifaço, pois os Estados Unidos já impuseram as tarifas sem base sólida e tendem a manter o curso das tratativas por razões próprias.
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