Saúde

Superbactéria crítica para a OMS é encontrada pela 1ª vez em alimento no Brasil

Bactéria classificada pela OMS como crítica pela alta resistência a antibióticos foi identificada pela primeira vez em alimentos nas ostras brasileiras

Por G1 05/06/2026 14h02
Superbactéria crítica para a OMS é encontrada pela 1ª vez em alimento no Brasil
Superbactéria crítica para a OMS é encontrada pela 1ª vez em alimento no Brasil - Foto: Foto: Adobe Stock

Em agosto de 2025, pesquisadores da USP e do Instituto de Pesca de São Paulo publicaram estudo sobre a descoberta que deveria estar em todo noticiário de saúde pública: a bactéria Citrobacter telavivensis foi identificada pela primeira vez em alimentos no Brasil. Esta bactéria é classificada pela Organização Mundial da Saúde como de prioridade crítica em resistência a antibióticos.

O alimento em questão eram ostras frescas, compradas em mercados de São Paulo e Santa Catarina. Nenhuma das amostras teria sido reprovada nos testes de inspeção sanitária vigentes.

Uma ameaça que cresce silenciosamente

A resistência antimicrobiana é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma das dez maiores ameaças à saúde global. Em outubro de 2025, o relatório GLASS da OMS revelou que uma em cada seis infecções bacterianas registradas entre 2018 e 2023 já apresentava resistência a antibióticos — um aumento de mais de 40% no período.

Em maio de 2025, a Assembleia Mundial de Saúde aprovou um novo Plano Global de Ação para 2026–2036, em reconhecimento de que, sem intervenção, as superbactérias podem matar até 39 milhões de pessoas por ano até 2050. Esse número supera as projeções atuais de mortalidade por câncer.

O problema, porém, ainda é narrado quase exclusivamente como uma questão hospitalar. O que os dados de 2025 reforçam é que elas chegaram à cadeia alimentar — e que a fiscalização sanitária brasileira ainda não acompanhou essa mudança.

Por que a ostra é um espelho do mar?

Ostras são animais filtradores. Elas bombeiam água continuamente para se alimentar e retêm na microbiota tudo o que circula no ambiente onde crescem: vírus, metais pesados, resíduos de medicamentos e bactérias.

Por isso, funcionam como sentinelas ambientais. O que está na água, está nelas.

No estudo de 2025, as amostras continham não apenas a Citrobacter telavivensis — registrada pela primeira vez em um hospital israelense em 2010 — mas também cepas de Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli resistentes a antibióticos de última geração. Além disso, 35% das amostras apresentaram concentrações de arsênio acima do limite máximo permitido pela Anvisa.

Os pesquisadores identificaram um fenômeno chamado co-seleção: o arsênio e os resíduos de antibióticos presentes na água selecionam, ao mesmo tempo, bactérias tolerantes aos dois. O ambiente poluído age como uma estufa de resistência.

O protocolo que não foi feito para isso

Quando um peixe ou um molusco chega a uma planta de processamento no Brasil, ele é avaliado por sistemas reconhecidos internacionalmente — HACCP, APPCC, Boas Práticas de Fabricação.

Esses sistemas verificam temperatura, higiene, presença de microrganismos totais, ausência de patógenos específicos como Salmonella e Listeria.

O que eles não verificam é o perfil de resistência antimicrobiana das bactérias encontradas. Um lote de peixe pode conter o Staphylococcus aureus resistente à meticilina, uma das superbactérias mais perigosas conhecidas — e ainda assim ser liberado para consumo se o número total de microrganismos estiver dentro da norma.

Há uma razão técnica para isso: os protocolos foram desenhados antes de a resistência antimicrobiana se tornar um problema de escala na cadeia alimentar. Eles ainda estão atualizados para o problema de ontem.