Defesa vai tentar desacreditar áudio em que réu confessa o crime, principal prova do Caso Roberta Dias
Apesar da tese, gravação com confissão de Karlo Bruno foi periciada pela Polícia Federal
Com o Fórum Desembargador Alfredo Gaspar de Mendonça, em Penedo, novamente sob os olhares atentos da opinião pública, teve início nesta quarta-feira (23) o julgamento do Caso Roberta Dias — crime que chocou Alagoas pela brutalidade e pelo tempo transcorrido até a identificação dos restos mortais da vítima. No banco dos réus, estão Karlo Bruno Pereira Tavares, conhecido como “Bruninho”, e Mary Jane Araújo Santos. Ambos respondem por homicídio triplamente qualificado, aborto provocado por terceiro, ocultação de cadáver e corrupção de menores.
Logo nas primeiras horas do dia, antes da abertura da sessão do Tribunal do Júri, um dos advogados de defesa de Karlo Bruno concedeu entrevista à imprensa e adiantou qual será uma das principais linhas argumentativas para tentar inocentar o réu: desacreditar o conteúdo de um áudio considerado peça-chave pela acusação.
“O áudio que atribuem ao meu cliente é falso. Vamos demonstrar isso tecnicamente e juridicamente”, afirmou o defensor, sem detalhar os meios pelos quais pretende contestar a gravação. A fita, periciada pela Polícia Federal, registra uma conversa entre dois homens. Em determinado trecho, um deles confessa como teria matado Roberta e onde enterrou o corpo. Para o Ministério Público, trata-se de uma prova contundente da participação de Karlo Bruno no crime.
A promotoria, representada por Sitael Jones Lemos, rechaça a tese da defesa. Segundo ele, “a materialidade e a autoria estão nas mais de 4,7 mil páginas do processo”. O promotor reiterou que o crime foi premeditado e cometido com extrema crueldade. A acusação sustenta que Roberta, grávida à época, foi atraída por Saullo — filho de Mary Jane e namorado da vítima — para uma emboscada. Durante o trajeto de carro, Karlo Bruno estaria escondido no porta-malas e, ao chegar a um local ermo, teria enforcado Roberta com um fio de som automotivo.
A motivação, de acordo com o MPAL, seria a recusa da jovem em interromper a gravidez. O corpo foi ocultado e permaneceu desaparecido por quase uma década, até ser encontrado em 2021, na Praia do Pontal do Peba, após a insistência da mãe da vítima em realizar buscas por conta própria.
Ao longo da semana, o julgamento seguirá com a oitiva de testemunhas e os interrogatórios dos réus. A expectativa é de que a sessão se estenda até sexta-feira (25), quando defesa e acusação terão duas horas e meia cada para apresentar seus argumentos finais, com possibilidade de réplica e tréplica.
Saullo, que tinha 17 anos na época do crime, foi julgado pela Vara da Infância e da Juventude e não figura entre os réus do júri. Já Karlo Bruno e Mary Jane poderão ser condenados por todos os crimes atribuídos, caso os jurados acolham a versão do Ministério Público.
Mais do que um julgamento, o caso é visto como símbolo da luta contra a violência de gênero e da persistência por justiça de uma mãe que, sozinha, ajudou a dar um desfecho a um dos crimes mais brutais do Baixo São Francisco.
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