Defesa questiona acusação de estupro, mas MP apresenta provas contra réu do Bosque
Promotora Viviane Karla Farias sustenta que Cícera Laura foi vítima de violência sexual e destaca imagens de câmeras, ausência de roupas íntimas e histórico de importunação sexual atribuído ao acusado
A defesa de Anderson Gonçalves, réu pelo estupro e assassinato de Cícera Laura da Silva, de 47 anos, tenta derrubar a acusação de violência sexual durante o julgamento realizado nesta quarta-feira (4), em Arapiraca, no Agreste de Alagoas. Para isso, argumenta que o avançado estado de decomposição do corpo impediu a identificação de vestígios que comprovassem o estupro. A vítima foi encontrada sem roupas da cintura para baixo.
Em resposta, a promotoria apresentou argumentos e provas materiais para sustentar a acusação de estupro. Entre os elementos destacados estão a condição em que o corpo foi encontrado, as imagens de câmeras de segurança e os relatos de duas testemunhas que afirmaram ter sido importunadas sexualmente pelo acusado antes do assassinato.
A promotora de Justiça Viviane Karla Farias, que atua no caso, explicou que, embora não seja integrante da equipe responsável pelo Tribunal do Júri, pediu para participar da acusação desde que o crime aconteceu.
"De todos os promotores de Justiça daqui, sou a única mulher. E, como mulher, filha de Arapiraca, eu tomei para mim essa dor. É muito difícil ser mulher nos dias de hoje. Somos julgadas por tudo. Dona Cícera, como eu, saía de madrugada para se exercitar e usava as atividades para se afastar da depressão. E foi brutalmente estuprada e assassinada", declarou.
A promotora também destacou o sofrimento dos familiares da vítima e afirmou que o Ministério Público compartilha a dor enfrentada pela família durante a busca por justiça.
"Quando uma mulher morre, todas nós morremos um pouco", afirmou.
Promotoria aponta histórico de importunação sexual
Durante a sustentação, Viviane lembrou os depoimentos das duas primeiras testemunhas ouvidas no julgamento. As mulheres, que são irmãs, relataram que Anderson costumava acompanhá-las durante caminhadas e que, em uma das ocasiões, teria dado um tapa nas nádegas de uma delas, exibido os órgãos genitais e feito comentários de cunho sexual.
Para a promotora, os relatos ajudam a demonstrar o comportamento do acusado em relação às mulheres.
"Isso mostra claramente o desprezo que tinha pelas mulheres. Será que ele fazia isso também com os homens que caminhavam no bosque? Claro que não. E o Ministério Público coloca aqui a questão do estupro, sim", argumentou.
Viviane também apontou que Cícera foi encontrada sem short e calcinha e destacou registros de câmeras de segurança que, segundo ela, mostram Anderson conduzindo a vítima em direção à área de mata por volta das 5h07 e deixando o local aproximadamente uma hora depois.
A promotora sustenta que o estupro ocorreu em circunstâncias que impediram a defesa da vítima. O Ministério Público também acusa o réu de ocultação de cadáver, sob o argumento de que ele levou Cícera para uma área de vegetação fechada com o objetivo de dificultar a localização do corpo.
Segundo Viviane, o ambiente úmido e a mata fechada contribuíram para que o cadáver apresentasse avançado estado de decomposição em apenas dois dias.
Promotora cobra condenação e lembra outros casos de violência contra mulheres
Em outro momento da manifestação, a promotora mencionou um caso recente de feminicídio em Santana do Ipanema para chamar atenção à naturalização da violência contra mulheres. Ela citou a reação de uma pessoa que, ao comentar o assassinato de uma mulher morta com um golpe de faca no pescoço após cobrar pensão alimentícia, afirmou: "Ela deve ter feito alguma coisa para ele matá-la".
Viviane também fez referência ao sofrimento dos familiares de Cícera, afirmando que a conclusão do julgamento representa uma etapa importante para que a família consiga encerrar esse ciclo de dor.
"Quando a família ainda espera o julgamento, é como se a tampa do caixão ainda estivesse aberta e somente com a condenação a tampa do caixão será fechada e dona Cícera enterrada dignamente", declarou.
Ao concluir sua manifestação, a promotora pediu aos jurados que reconheçam todas as qualificadoras apresentadas pela acusação.
"Digo a vocês, filhos e todos os familiares, que hoje a Justiça será feita com a condenação do réu. Eu garanti à família que daria tudo de mim para amenizar a sua dor. Então, hoje, pedimos ao Conselho de Sentença que aceitem todas as qualificadoras. Precisamos mostrar a outros predadores que ainda estão na clandestinidade que os crimes não ficarão impunes. Precisamos fazer dona Cícera descansar em paz", concluiu.
O julgamento continua com a apresentação de vídeos coletados pela família da vítima e utilizados pela assistente de acusação, advogada Lívia Azevedo.
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