Ex-jogador do Corinthians deixa futebol feminino, se assume trans e sonha em quebrar barreira
O maior impasse de Marcelo era continuar jogando futebol no feminino ou fazer a transição hormonal.
Um dos grandes destaques do Corinthians oficializou sua saída do time em setembro de 2019, às vésperas da grande final do Campeonato Brasileiro contra a Ferroviária. Marcela precisaria voltar a sua cidade natal, Sete Lagoas, no estado de Minas Gerais, para resolver questões pessoais, sem mais detalhes.
Nesta quarta-feira (29), Dia Nacional da Visibilidade Trans, Marcela apresentou-se com sua nova identidade: Marcelo. Em carta aberta ao GloboEsporte.com, o ex-jogador do time feminino do Corinthians afirmou ter sofrido muito para se aceitar, mas decidiu passar por transição sexual em agosto de 2019.
“A decisão pegou todos de surpresa. Hoje, é libertador poder falar sobre isso, mas o primeiro mês foi devastador. Eu só sentia tristeza. Mas não queria que continuassem vendo uma menina jogar”, escreveu Marcelo, de 31 anos.
O maior impasse de Marcelo era continuar jogando futebol no feminino ou fazer a transição hormonal. Desde 2015, quando ele descobriu a palavra ‘transgênero’, entendeu o que estava passando. Quando criança, a mãe insistia que ele usasse roupas de menina, algo que nunca o fez feliz. No vestiário, tinha uma sensação de não pertencimento. Quando mais novo, jogava com os meninos e não tinha problemas com isso, era bem aceito, mas recebia apelidos maldosos das meninas - algo que ele gostava, já que eram todos relacionados ao sexo masculino. Mas só mais tarde ele entendeu o que se passava.
Com a carreira indo bem, titular absoluto do Corinthians e com o sonho de chegar à seleção brasileira, onde já passou, mas no futsal e ainda conquistou três títulos, ele passou a sofrer depressão e ‘travou’.
“Pode chamar de surto, nem sei explicar o que senti, mas não estava bem, tinha pensamentos suicidas, e às vezes o pânico me dava certeza de que eu iria morrer. Em outubro, me entupi de remédios e de álcool. Desapareci. O técnico do Corinthians, Arthur Elias, e minha companheira e amiga de time, Gabi Zanotti, decidiram me internar em um hospital psiquiátrico. Todos temiam pela minha vida”, contou.
A maior dificuldade da vida de Marcelo era ter que escolher em torna-se o que sempre sentiu que, de fato, era, e continuar seguindo no futebol feminino, ou se assumir trans. Mas quando decidiu seguir no esporte, apesar de ter sido uma espécie de refúgio desde a infância, onde esquecia os problemas de álcool do pai ou os abusos sexuais que sofreu do avô, sua saúde mental foi fortemente afetada.
Com passagens pelo XV de Piracicaba, Santos e Corinthians, onde conquistou o título brasileiro em 2018, Marcelo anotou um gol na final e aparece sorrindo nas imagens. Mas afirma: “Se você olhar para a foto do título, vai ver um sorriso de satisfação. Mas pode acreditar: por dentro, eu estava destruído”.
Pouco antes da Copa do Mundo feminina, Marcelo teve outra crise e achava que teria que vestir a camisa da seleção na França, mas à medida que seu futebol no Corinthians ia decolando, sua saúde mental estava cada vez pior. Foi quando decidiu passar pela transição.
“A decisão pegou todos de surpresa. Hoje, é libertador poder falar sobre isso, mas o primeiro mês foi devastador. Eu só sentia tristeza. Mas não queria que continuassem vendo uma menina jogar”, disse o jogador.
Ele está prestes a chegar na quinta sessão de hormonização e diz que já sente sua voz diferente. Para não parar de praticar atividades físicas, Marcelo vai à academia, ao crossfit e joga uma pelada com amigos duas vezes por semana.
Ainda não há um caso de transgênero no futebol masculino, mas Marcelo acredita que pode ser o primeiro. A Fifa disse ao GloboEsporte.com que os casos devem ser analisados e avaliados um por um. Já a CBF, afirmou que seguirá as determinações da Fifa, mas que não existe nada no regulamento que impeça a inclusão.
O que importa no momento é que Marcelo se sente em paz e pronto para seguir sonhando. “Por enquanto, só quero que todos saibam que eu não desisti de nada. Meu nome é Marcelo, e minha vida está apenas começando”, finalizou.
Veja também
Últimas notícias
Palmeira dos Índios é única cidade de Alagoas a receber Prêmio de Inclusão Socioeconômica em Brasília
Penedo sedia encontro nacional dos Conselhos Municipais de Educação
Famílias de São Sebastião são beneficiadas com títulos de propriedade de imóveis
PL de Renan Calheiros avança no Senado com linha de crédito especial para produtores rurais endividados
Polícia desmancha depósito e apreende mais de 18kg de drogas no bairro São Luiz em Arapiraca
João Vicente explica escolha de Tino Marcos para novo projeto do Porta
Vídeos e noticias mais lidas
Publicado edital para o concurso do Detran; veja cargos e salários
Jovem é expulso após ser flagrado se masturbando dentro de academia de Arapiraca
Após demissão de Moro, Bolsonaro fará declaração às 17h
Mototaxista é assassinado a tiros em São Luís do Quitunde
