Mordaz e violento, ‘Brás Cubas’ estoura nas redes e lidera lista de mais vendidos nos EUA
Livro de Machado de Assis detalha os abusos da alta sociedade e o horror da escravidão
O romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra-prima de Machado de Assis publicada em 1881, estourou em vendas após uma resenha da influenciadora americana Courtney Henning Novak viralizar no Tik Tok.
“Eu absolutamente amei Memórias Póstumas. Seriamente, este é provavelmente meu novo livro favorito. Eu vou definitivamente ler mais livros desse autor e mais literatura brasileira”, diz a booktoker, no post.
“Tenho três grandes problemas com esse livro. Primeiro, a minha edição só tem 300 páginas. Só faltam 100 páginas para mim. E, se eu for muito cuidadosa, elas vão durar até o fim de semana. E aí o quê? O que eu deveria fazer com o resto da minha vida? […] Eu acho que é meu novo livro preferido”, completa.
A edição mostrada nas redes é da editora Penguin Classics e tem uma tradução impecável de Flora Thomson-DeVaux, americana especializada em Machado que mora no Rio — o trabalho é fruto de seu doutorado, realizado na Universidade de Brown.
O romance foi publicado pela primeira vez em 1880, no formato de folhetim, na Revista Brasileira, e só tomou o formato de livro no ano seguinte.
Símbolo da literatura realista, a obra é marcada pelo humor cáustico do escritor, que critica duramente a escravidão e a estrutura de classes, assim como o próprio ser humano.
Para isso, Machado lança mão do recurso de um “defunto autor”, que, justamente por estar morto, não mede as palavras ao escrever sua própria biografia. Filho da elite carioca, Brás Cubas acostumou-se a fazer “romantismo prático e liberalismo teórico” de sua vida, desfrutando do privilégio de não ter que trabalhar para viver.
Uma das passagens mais lembradas, que representa a falta de crença de Machado no ser humano, descreve o personagem Prudêncio: filho de escravos que, já crescido e livre, é visto pelo protagonista batendo em um negro que ele mesmo comprou.
A última frase do livro também é simbólica: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
Na lista de mais vendidos da Amazon, Memórias Póstumas aparece à frente de clássicos como O Amor nos Tempos do Cólera, do colombiano Gabriel Garcia Márquez.
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