Quilombolas do Carrasco: do preconceito ao resgate da autoestima
Griô. Na linguagem africana, é utilizada para designar um lugar social e político na comunidade para transmissão de saberes e afazeres. A palavra também passou a personificar não só o espaço físico de uma comunidade de cor negra, mas também a figura de uma pessoa. Margarida Maria da Silva é uma griô da comunidade quilombola do Carrasco, que fica a quase 15 km do Centro de Arapiraca.
Nesta quinta-feira (20), quando diversos eventos celebram o Dia da Consciência Negra, Margarida Maria fala com orgulho de ser uma das remanescentes da comunidade quilombola e fala de uma época onde deixar o Carrasco e se arriscar em locais vizinhos, e próximos, como a comunidade de Massaranduba, por exemplo, era ser alvo de racismo.
Acompanhando com orgulho o X Evento "Independente da cor todos têm seu valor" , realizado durante a semana na Escola de Ensino Fundamental Manoel João da Silva, que funciona em tempo integral, a griô Margarida afirma que hoje sua comunidade saiu do esquecimento para ser valorizada.

“Lembro que há muitos anos, o Carrasco não possuía uma escola. Para estudar, tinha que ir para a Massaranbuda ou Cohab. O problema é que nesses locais não podíamos deixar os filhos porque os outros não aceitavam negro estudando na mesma escola. Hoje, o racismo ainda existe, mas fico feliz em ver que essa escola na nossa comunidade quilombola resgata a cultura negra e procura unir as pessoas independente da cor”, analisa a griô.
Há mais de cem anos instalada em Arapiraca, a comunidade quilombola do Carrasco tem em média 300 famílias vivendo no local. Margarida Maria conta com carinho a história da formação do povoado com marca dos negros escravos.
“Antônia Rosa foi uma mulher branca que tinha a alma negra. Nossos ancestrais nos contavam que ela se negou a vender os negros que tinham aqui para um pessoal que veio de longe para comprar escravos. Antes de morrer, Antonia Rosa, dividiu as terras que tinha e doou aos filhos dos negros que trabalharam com ela nas fazendas, fazendo com que surgisse o Carrasco”, relembra a griô.

Pesquisa revelou rejeição a própria cor
Há cinco anos, uma pesquisa feita pelo corpo docente da Escola Manoel João da Silva, para avaliar a relação que os membros da comunidade quilombola tinha com a própria cor. Os dados preocuparam a escola que, a partir dali, resolveu criar o Evento "Independente da cor todos têm seu valor" para melhorar a autoestima dos quilombolas, como explica a professora Francisca Oliveira.
“Parte do resultado daquela pesquisa nos surpreendeu porque houve casos em que uma família inteira, toda negra, não se considerava negra. No questionário, eles se diziam morenos, pardos, mas negros não. Por isso criamos esse evento aqui para discutir o assunto, tentar melhorar a autoestima deles e temos conseguido fazer com que eles vejam a beleza da cor deles e tudo que envolve a raça”, contou a professora.
Francisca Oliveira revelou que hoje os quilombolas já se assumem, passaram a ter orgulho da raça que fazem parte e têm sido confrontados no dia a dia com membros da comunidade que hoje são professores e outras atividades, até figuras ilustres como o presidente dos EUA, o negro Barack Obama.
“Essa é uma forma de mostrar que se outros negros, tanto daqui da comunidade quanto de outro país, subiram na vida, eles aqui do Carrasco também podem chegar onde quiserem. A escola Manoel João da Silva tenta fazer esse papel e, creio, tem conseguido. Só par temos ideia, hoje a pergunta mais freqüente dos alunos para os professores é se é muito difícil chegar na universidade. Respondemos que é um caminho duro, mas possível de ser alcançado, não só para os negros como para qualquer um. As cotas estabelecidas pelo governo federal são uma ferramenta que tem ajudado os negros a entrar na faculdade”, avalia a professora.

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