Contra degradação dos recifes de coral, Havaí quer regular protetores solares
O Havaí deve se tornar o primeiro estado americano a proibir a venda de protetores solares que contenham ingredientes prejudiciais aos recifes de coral.
Um projeto de lei aprovado pelos legisladores estaduais barra a comercialização de produtos que tenham as substâncias oxibenzona e metoxicinamato de octila em suas fórmulas. Segundo cientistas, essas substâncias contribuem para o branqueamento dos corais.
O processo chamado de branqueamento acontece quando algum desequilíbrio faz com que o coral expulse algas que vivem em simbiose.
Oxibenzona e metoxicinamato de octila estão nas fórmulas de mais de 3.500 dos protetores mais populares no mundo. Com a nova regra, no Havaí, eles só poderão ser vendidos com receita médica.
A nova lei foi proposta pelo senador democrata Mike Gabbard e aprovada na Câmara e no Senado havaianos — os Legislativos dos estados americanos são bicamerais. Agora, o texto aguarda a assinatura do governador democrata David Ige.
Gabbard afirmou ao jornal Honolulu Star Adviser que a lei será "a primeira do mundo" nessa área.
"O Havaí está inovando ao proibir estes produtos químicos perigosos. Isso vai fazer uma diferença enorme na proteção dos nossos recifes de coral, na vida marinha e na saúde humana."
Além do branqueamento, o texto da lei menciona que as substâncias presentes nos protetores matam os corais em desenvolvimento e causam "danos genéticos a corais e outros organismos marinhos".
A oxibenzona é usada para bloquear os raios solares UV e prevenir sua absorção pela pele. O metoxicinamato de octila protege a pele dos raios UV-B e atenua a aparência de cicatrizes.
O que os cientistas dizem?
Em 2015, Craig Downs, um dos coautores do principal estudo mostrando os efeitos adversos das duas substâncias sobre os corais, disse ao jornal The Washington Post que "qualquer pequeno esforço para reduzir a poluição por oxibenzona pode significar que um coral sobreviva a um verão longo e quente, ou que uma área degradada se recupere".
A revista científica Nature noticiou, no entanto, que outros especialistas em corais não têm certeza de que proibir protetores solares terá um grande impacto.
"Proibir protetores não resolverá outros problemas como anomalias de temperatura, excesso de pesca, predadores de corais e o problema maior do escoamento de esgoto costeiro, que polui e destrói os recifes", disse à revista Jorg Wiedenmann, chefe do Laboratório de Recifes de Coral na Universidade de Southampton, no Reino Unido.
"Mas em lugares com uma grande quantidade de turistas, é razoável manter a cautela e dizer: 'Sim, pode haver efeitos cumulativos'."
As praias havaianas recebem mais de 8 milhões de turistas a cada ano e o número de visitantes vem crescendo. O estudo de Downs, publicado no periódico Archives of Environmental Contamination and Toxicology, demonstrou que cerca de 12 mil toneladas de protetor solar acabam sendo carregadas para os recifes de coral.
O Escritório de Assuntos Havaianos, uma agência pública que advoga em favor de povos nativos do estado, apoiou o projeto de lei, juntamente com uma série de ONGs ambientalistas.
Só quatro representantes republicanos no Legislativo havaiano se opuseram ao projeto, mas diversas associações locais e empresas se manifestaram contra ele.
Segundo o jornal Star Advertiser, a farmacêutica Bayer, que fabrica o protetor solar Coppertone, disse que não há nos Estados Unidos ingredientes que sejam semelhantes e tenham a mesma eficiência da oxibenzona.
A Associação Médica do Havaí disse ao jornal que discordava do projeto de lei por causa da falta de provas revisadas pela comunidade científica de que os protetores causem o branqueamento de corais. Por outro lado, diz o órgão, há muitas provas científicas de que as substâncias protegem do câncer de pele.
O governador havaiano ainda não indicou se sancionará a lei.
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