Em crise, hospital de Arapiraca não paga salários e pode parar a partir do dia 1º de março
Enquanto funcionários relatam estar passando por necessidades, gestora viaja para aproveitar o Carnaval
Funcionários sem receber salários desde novembro e com medo de buscar seus direitos pelos meios oficiais. Esta é a situação de trabalhadores e trabalhadoras do hospital Memorial Djacy Barbosa, conhecido como Hospital Afra Barbosa, que pode estar enfrentando a pior fase da crise interna, que perdura por anos e tem como uma das principais causas a disputa familiar pela administração da unidade, que a partir do dia 1º de março estará sob interdição ética.
“Por favor, sob nenhuma hipótese, meu nome ou a minha voz podem ser revelados. Apesar de tudo que a gente passa, se descobrirem quem denunciou, vai ter retaliação. Lá dentro, o que vale é a lei do silêncio, a gente tem que sofrer calado, mas ninguém está aguentando a revolta”, afirmou um funcionário que entrou em contato com o 7Segundos, por telefone.
O trabalhador contou que o assédio moral dentro da unidade é comum e que muitas vezes as humilhações são presenciadas até mesmo pelos pacientes, por isso pediu várias vezes para que não fossem divulgadas informações que possam identificá-lo.
“Resolvi procurar a imprensa porque não sabemos a quem recorrer. Ninguém quer tomar à frente para denunciar a nossa situação ao Ministério Público. Sei que uma denúncia foi feita no Ministério do Trabalho, mas não surtiu efeito até agora. Estamos com três meses de salários atrasados, passando necessidade, e enquanto isso a gestora Waneska Barbosa está viajando”, afirmou.
Conforme o denunciante, funcionários de vários setores receberam salários pela última vez no mês de novembro. Eles estão com os meses de dezembro, décimo terceiro e janeiro em aberto. Em uma reunião ocorrida na última sexta-feira, a administração do hospital sugeriu pagar os salários de dezembro e décimo terceiro divididos em dez parcelas, até o final deste ano.
“Aí depois a gente fica sabendo que ela viajou para o exterior e vai passar o carnaval fora do país. Tem pessoas aqui que só não está passando fome com a família porque está contando com a ajuda de parentes. A gente continua trabalhando simplesmente porque não tem outra opção, porque se sair é que não vai receber mesmo os salários atrasados”, declarou.
A reportagem entrou em contato com o departamento jurídico do Hospital Afra Barbosa no final da manhã de sexta (21), que confirmou que a gestora realmente está viajando. O advogado, no entanto, disse não saber se Waneska Barbosa está fora do país e encaminhou nota que está na íntegra no final da matéria.
O jurídico também respondeu sobre a interdição ética imposta pelo Cremal. Conforme documento que a reportagem teve acesso (veja na galeria de imagem), o Conselho Regional de Medicina fez duas fiscalizações na unidade hospitalar, nos meses de fevereiro e novembro, que constataram várias irregularidades que comprometeriam o exercício da medicina no local. Por conta disso, em sessão plenária realizada no dia 19 de dezembro do ano passado, os conselheiros do Cremal decidiram pela “interdição ética em caráter total dos médicos no hospital Memorial Djacy Barbosa”.
A interdição passa a vigorar a partir do dia 1º de março e tem um prazo de 60 dias, mas pode ser prorrogado indefinidamente, caso o hospital – que há anos passa por reformas – faça as adequações exigidas. Essa decisão não afeta apenas o hospital, mas os médicos que trabalham lá. A interdição ética significa que os profissionais que integram o quadro médico da unidade devem suspender totalmente as atividades, sob o risco de cometerem infração ética.
Conforme funcionário que falou com a reportagem, a direção do Memorial está ciente da decisão do Cremal e, durante a reunião ocorrida na semana passada, teria informado os funcionários que o atendimento do hospital não seria afetado pela decisão.
Nota do setor jurídico do Memorial Djacy Barbosa:
1. A despeito das informações trazidas sobre a interdição ética do Hospital Memorial Djacy Barbosa, as reformas e adequações exigidas estão sendo realizadas, o que já foi informado ao Conselho, bem como às autoridades competentes, de forma que esta-se pleiteando e tem-se grande confiança na continuidade do serviço;
2. Quanto aos atrasos no pagamento, já foi apresentado ao órgão competente, bem como vem sendo efetuado plano de contingência com o intuito de regularização da situação;
3. O referido atraso é consequência da drástica queda de receita sofrida pela instituição, que dentre outros motivos, sofre com os atrasos de repasses públicos, bem como com a imotivada retirada dos chamaos atendimentos de "primeira vez" do setor oncológico, que veio a diminuir drasticamente a produção.
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