Enfermeiro homenageia mãe gari nas fotos de formatura: “Essencial”
Primeiro da família a ter curso superior, o enfermeiro Kawê Guilhermy tomou a atitude para mostrar que todas as profissões são importantes
Goiânia – Os preparativos para a formatura do jovem enfermeiro Kawê Guilhermy, de 22 anos, adquiriu uma conotação ainda mais especial depois que ele decidiu fazer uma homenagem para a mãe que trabalha como gari na Prefeitura de Goiânia há 16 anos.
Filho de mãe solo e primeiro da família a concluir o ensino superior, Kawê convidou a mãe para participar da sessão de fotos da formatura. A ideia dele, além de demonstrar todo o reconhecimento pelo esforço dela ao criá-lo, foi também o de mostrar admiração pela profissão que ela executa.
Andréa dos Santos Andrade, de 42 anos, foi surpreendida pela intenção do filho de que ela levasse o uniforme da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), roupa que utiliza diariamente ao limpar as ruas da capital, para o local onde as fotos foram feitas.
“Não é porque estou de jaleco branco ou com essa beca que sou melhor que qualquer outra profissão. Ela trabalha limpando, e na enfermagem a gente considera a limpeza e a higiene como necessidades básicas do ser humano. Eu também trabalho com necessidades básicas, restabelecendo a saúde das pessoas”, pondera Kawê.
Para as fotos, o enfermeiro decidiu que colocaria o chapéu utilizado pela mãe, no dia a dia da profissão de gari, e ela colocaria o capelo, como é chamado o chapéu da beca de formando. “Quando fizemos isso, as pessoas que estavam lá ficaram emocionadas”, conta ele.
Kawê presenciou episódios de discriminação
O rapaz relatou ao Metrópoles que, na infância e adolescência, chegou a acompanhar a mãe algumas vezes no trabalho, limpando as ruas. Além dos inúmeros relatos feitos por ela, ele próprio presenciou situações de discriminação sofridas pela mãe pelo fato de ser gari ou estar uniformizada como tal.
“Minha mãe já passou muitas situações e eu presenciei algumas ao lado dela. Quando ela pedia água em algum lugar ou quando ia em algum comércio comprar coisas, as pessoas tratavam ela com diferença, com grosseria, só por estar vestida de gari. Ela fala uma frase que é verdade: ‘Nós garis somos invisíveis. As pessoas não nos vê'”, relata o jovem.
A reação da mãe foi de alegria ao perceber o reconhecimento do filho pelo esforço e profissão que ela exerce. “Eu sou o primeiro da família a ter curso superior. Fui formado 100% pelo ProUni. A gente veio do interior, já morei na roça com os meus avós e, querendo ou não, tive que lutar muito para conquistar tudo que conquistei, mas sem deixar de reconhecer de onde eu vim”, afirma.
Kawê colou grau nesta segunda-feira (18/7) numa solenidade especial e antecipada em relação ao restante da turma, pois ele já está trabalhando em um hospital de Goiânia. “Não deixarei minha essência de lado. Não será o meu diploma ou a minha profissão que fará com que eu deixe para trás quem eu realmente sou. Nunca tive vergonha, só orgulho”, diz ele.
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